«Magnifica Humanitas»: Teólogos portugueses rejeitam guerra algorítmica e desumanização laboral

Debate abordou principais desafios da primeira encíclica de Leão XIV

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 29 mai 2026 (Ecclesia) – Especialistas da Universidade Católica Portuguesa alertaram esta quinta-feira para os riscos de desumanização promovidos pela inteligência artificial (IA), exigindo o fim do armamento autónomo e a defesa intransigente da dignidade laboral.

“Nesta guerra conduzida pelos algoritmos, emerge a possibilidade, profundamente inquietante, de se matar sem olhar o outro. Trata-se de uma violência técnica que acaba por se distanciar muito, alguém que mata e parece não ter culpa”, denunciou o professor Vítor Novais, num debate online dedicado à primeira encíclica de Leão XIV, focada no impacto da IA.

O especialista em Doutrina Social da Igreja centrou-se na urgência de “desarmar” a IA, uma proposta do Papa, face à delegação de decisões bélicas em sistemas que colocam a decisão humana em segundo plano.

O docente abordou também a automação massiva no mercado de trabalho, sublinhando as consciências para os trabalhadores.

“A dignidade não se compra”, advertiu o investigador, em defesa do valor intrínseco de cada profissão.

A perspetiva antropológica dominou a reflexão perante a tentação de criar “espelhos digitais” para procurar uma existência invulnerável.

“O grande erro é partirmos do pressuposto de que nós somos máquinas”, alertou o professor João Manuel Duque, a respeito das derivas transumanistas.

O teólogo apontou a aceitação da própria “fragilidade” como a dimensão que distingue as pessoas dos processadores mecânicos.

“Aquilo que nos qualifica e que é o mais profundo de nós próprios é precisamente esta dimensão da vulnerabilidade e da fragilidade humana”, sustentou o orador.

Esta é uma oportunidade para pensarmos que nós, humanos, temos caminhos que não são os caminhos das máquinas e que as máquinas nunca conseguirão percorrer.”

A intensa extração mineira e os elevados consumos de água para a refrigeração das infraestruturas serviram ainda para denunciar a falsa “desmaterialização” das grandes empresas tecnológicas.

“Para alguns usufruírem dessas tecnologias, outros estão a ser atacados na sua dignidade mais básica de ser humano”, lamentou o padre Luís Miguel Figueiredo Rodrigues.

O diretor da Faculdade de Teologia sugeriu a adoção de um “jejum” profilático de ecrãs para impedir que o mercado eduque e condicione a vontade individual.

“Ao fazermos este jejum, aprendemos a valorizar o que é essencialmente humano e a não delegar o que é especificamente humano na máquina”, clarificou o teólogo.

A tecnologia permite uma utilização que humaniza, que ajuda, que cura, que conecta, mas também permite uma utilização que divide, que descarta e que gera novas gerações injustas.”

A encíclica ‘Magnifica Humanitas’ (a magnífica humanidade), divulgada esta segunda-feira pelo Vaticano, convoca a sociedade para o “desarmamento” da Inteligência Artificial perante os cenários de automação militar e manipulação de dados.

O documento de Leão XIV alerta para o agravamento das desigualdades globais geradas pelo “colonialismo” digital, denunciando as novas formas de escravatura que sustentam a transição tecnológica.

O texto pontifício contrapõe as promessas de transcendência do transumanismo ao valor irredutível da dignidade humana, apelando a uma civilização assente no amor e no bem comum.

OC

 

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