«Magnifica Humanitas»: Igreja colocou-se na «carruagem da frente» do comboio no debate sobre a IA com a encíclica de Leão XIV – Octávio Carmo

Chefe de redação da Agência ECCLESIA analisa documento do Papa, publicado a 25 de maio

Foto: Vatican Media

Lisboa, 28 mai 2026 (Ecclesia) – O chefe de redação da Agência ECCLESIA, Octávio Carmo, considera que a Igreja se colocou na frente no debate sobre a inteligência artificial (IA) com o lançamento da primeira encíclica ‘Magnifica Humanitas’ do Papa Leão XIV, que se debruça sobre o tema.

“Nem é muito vulgar na Igreja Católica, nos seus documentos de magistério, dizer ‘vamos falar já e começar a tratar disto antes que seja tarde demais’. Normalmente, a Igreja vai mais para o fundo do comboio a ver como é que as modas param, desta vez quis estar na carruagem da frente”, afirmou o jornalista, em declarações ao Programa ECCLESIA, transmitido hoje na RTP2.

O vaticanista analisou o documento publicado esta segunda-feira e assinado a simbolicamente a 15 de maio para assinalar o 135.º aniversário da ‘Rerum Novarum’, encíclica de Leão XIII que inaugurou a chamada Doutrina Social da Igreja.

Octávio Carmo destaca que uma das mensagens que Leão XIV procurou passar foi a do perigo da utilização desta tecnologia para fazer a guerra.

“O que o Papa diz: não vamos esperar numa situação de tecnologia que se está a desenvolver com a inteligência artificial que seja preciso haver um efeito devastador semelhante ao de uma bomba atómica para que a humanidade acorde e diga isto está a ir longe demais”, referiu.

O jornalista alertou que a IA é, neste momento, “um protagonista central da forma de fazer a guerra”.

No documento, o Papa apela ao desarmamento da IA perante uma escalada global de conflitos, rejeitando qualquer teoria de “guerra justa” ou a legitimação do poder face ao direito internacional.

“Esta bomba vai ser atirada em cima deste local, vai matar 300 civis, mas os meus cálculos algorítmicos dizem que isto poupa três anos de guerra. Isto desconhece o imprevisível do humano”, exemplifica Octávio Carmo.

“Poderia ter havido uma negociação daí a 15 dias que acabasse com a guerra. É isto que o Papa diz. A decisão da guerra é uma decisão extrema e que tem de ser carregada de humanidade, não pode ser feita na lógica de cálculos de uns e zeros”, acrescenta.

O chefe de redação da Agência ECCLESIA chama a atenção para o facto de Leão XIV mostrar, na encíclica, que o conceito guerra justa está a ser usada para justificar coisas que não entram nesta definição.

No documento, com 245 pontos e cinco capítulos, Leão XIV aborda também o impacto da IA no mundo do trabalho e, explica Octávio Carmo, uma das “dimensões fundamentais” levantadas é a perda de emprego.

“O que o Papa pede muitas vezes é que, no momento em que se estiver a desenvolver esta tecnologia e que se saiba, porque naturalmente, as empresas querem ser mais eficazes, mais eficientes, conter custos e produzir mais, que se saiba que isso tem consequências humanas”, ressalta.

Para o jornalista, o ponto “mais importante” da leitura que fez da carta encíclica diz respeito à concentração de dados e poder nas empresas tecnológicas.

“Habituamo-nos a lidar com esses instrumentos quase diariamente e deixamos de questionar quem é que colocou os dados com os quais estamos a obter a resposta. Quem é que os controla? Quem é que lhes permite o acesso? Quem é que são os donos destas plataformas digitais? Quais são os seus objetivos económicos e políticos?”, questionou.

O entrevistado enfatiza que o Papa está a cumprir o que prometeu ao assumir o nome de Leão XIV: “Este é um documento que se insere na longa tradição de documentos pontifícios que assinalam o aniversário da Rerum Novarum. Esta é a primeira chave”.

“Magnifica humanitas” é a 301.ª encíclica na história da Igreja Católica, grau máximo das cartas que um Papa escreve.

PR/LJ

«Magnifica Humanitas»: Papa exige desarmamento tecnológico e rejeita teoria da «guerra justa»

Partilhar:
Scroll to Top