Primeira encíclica do pontificado denuncia novas formas de escravatura ligadas à economia digital

Cidade do Vaticano, 25 mai 2026 (Ecclesia) – O Papa apela, sua primeira encíclica, ao desarmamento da Inteligência Artificial (IA) perante uma escalada global de conflitos, rejeitando qualquer teoria de “guerra justa” ou a legitimação do poder face ao direito internacional.
“Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”, adverte Leão XIV, na ‘Magnifica Humanitas’ (A magnífica humanidade), divulgada hoje pelo Vaticano.
O pontífice rejeita a ideia de que “a violência é inevitável e deve apenas ser otimizada”, denunciando a crescente submissão das sociedades a uma “cultura do poder” e os lucros da indústria militar.
“Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje já não é apenas militar, mas económica e cognitiva”, precisa, questionando a “equivalência entre poder técnico e direito de governar”.
O Papa alerta para o perigo de submeter julgamentos com impacto de vida ou morte a sistemas automatizados e impessoais.
“A decisão de recorrer à força letal não pode ser delegada em processos pouco transparentes ou automatizados, mas deve permanecer sob um controlo humano efetivo, consciente e responsável”, assinala Leão XIV.
“Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da ‘guerra justa’, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra, mantendo-se o direito à legítima defesa entendida no sentido mais estrito”, acrescenta.
O Papa destaca que a revolução digital está a” modificar a gramática dos conflitos”, na qual a guerra é “acompanhada por formas híbridas: ataques cibernéticos, manipulação da informação, campanhas de influência, automatização de decisões estratégicas”.
Depois de semanas de tensão, marcadas pela guerra no Irão e as críticas da administração dos EUA, o Papa sustenta que “qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável”.
Quando nos deparamos com bombardeamentos contra civis; com ataques a hospitais, escolas ou infraestruturas vitais; com atos de violência que atingem crianças, estamos perante escândalos que ferem a própria humanidade. Por isso, não podemos limitar-nos a análises abstratas”.

Contra “uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional”, o documento deixa uma mensagem de paz, apelando ao diálogo entre religiões e à rejeição de qualquer ato violento justificado com a própria fé.
“Quem, para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra, usa o nome de Deus, trai a sua imagem: fazer guerra em nome da religião significa, na realidade, ferir a própria religião”, adverte.
A encíclica ‘Magnifica Humanitas’, sobre “a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, foi assinada simbolicamente a 15 de maio para assinalar o 135.º aniversário da ‘Rerum Novarum’, encíclica de Leão XIII que inaugurou a chamada Doutrina Social da Igreja.
Citando o pontífice que o inspirou na escolha do nome, Leão XIV defende que “o anúncio do Evangelho não se pode esquecer da vida concreta dos povos”.
O texto defende a introdução de parâmetros económicos complementares ao Produto Interno Bruto, capazes de medir o bem-estar real das populações.
“O objetivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego”, sustenta Leão XIV.
A encíclica denuncia o trabalho invisível e as novas escravaturas que sustentam a economia digital.
“Nalgumas regiões do mundo, adolescentes e crianças trabalham em condições perigosas na trituração dos materiais donde se extraem as terras raras. Corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo do cálculo não se interrompa.”, lamenta o pontífice.
Recordando a lentidão histórica da Igreja em condenar a escravatura no passado, Leão XIV assume essa ferida na memória cristã perante as novas formas de exploração: “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”.
A encíclica critica também o “colonialismo” digital em curso, que se apropria de dados e transforma as populações em informação vulnerável e explorável.
Territórios inteiros, sobretudo aqueles com menor relevância geopolítica e maior fragilidade estrutural, estão a ser atravessados por uma nova lógica de extração: a dos fluxos de saúde, dos perfis epidemiológicos, dos mapas genéticos e dos dados demográficos.”
O documento, com 245 pontos e cinco capítulos, convoca a sociedade para uma reflexão ética sobre o futuro, face ao “risco de construir um mundo desumano e mais injusto”, procurando alternativas para “o bem comum e a promoção de uma vida digna para todos”.
“Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor”, pede Leão XIV.
Esta é a 301.ª encíclica na história da Igreja Católica, grau máximo das cartas que um Papa escreve.
OC
| A palavra ‘encíclica’ vem do grego e significa ‘circular’, carta que o Papa enviava às Igrejas em comunhão com Roma, com um âmbito universal, onde empenha a sua autoridade primeiro responsável pela Igreja Católica.
O Papa mais prolífico neste tipo de cartas foi Leão XIII, com 86 encíclicas – embora muitos desses textos fossem, nos nossos dias, classificados como cartas apostólicas ou mensagens. Francisco assinou quatro encíclicas e Bento XVI outras três, nos 20 anos dos dois anteriores pontificados (2005-2025); São João Paulo II publicou 14 encíclicas, entre 1979 e 2003. O título de uma encíclica é o começo do texto na sua versão oficial, habitualmente em latim. Quando tratam de questões sociais, económicas ou políticas, as encíclicas são dirigidas, não só aos católicos, mas também a todos os ‘homens e mulheres de boa vontade’, prática iniciada pelo Papa João XXIII com a sua encíclica ‘Pacem in terris’ (1963). Esta é uma forma muito antiga de correspondência eclesiástica, dado que na Igreja os bispos enviavam frequentemente cartas a outros bispos, para assegurar a unidade entre a doutrina e a vida eclesial. Bento XIV (1740-1758) reavivou o costume, enviando “cartas circulares” a outros bispos, abordando temas de doutrina, moral ou disciplina que afetavam toda a Igreja; com Gregório XVI (1831-1846), o termo “encíclica” tornou-se de uso geral. |
