Politóloga analisa documento escrito por Leão XIV, que «não quer diabolizar a IA», mas alertar para a forma como está a ser colocada no centro
Lisboa, 03 jun 2026 (Ecclesia) – A politóloga Sílvia Mangerona afirmou que a primeira carta encíclica do Papa Leão XIV, publicada a 25 de maio, vem mostrar que a Igreja se afasta do aproveitamento de conceito de guerra justa e defende a importância de regressar à cooperação internacional.
“Este Papa e esta encíclica vêm lembrar que é necessário voltar ao multilateralismo, voltar à diplomacia, à relação e voltar ao acordo, à concertação que o direito internacional também foi matriz e que deriva também dos princípios da Doutrina Social da Igreja, como nós sabemos, no mundo ocidental”, referiu a docente universitária.
Em entrevista para o programa 70×7 (RTP2) do próximo domingo, a investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa lembrou os exemplos do panorama global que têm mostrado que “quando se coloca em causa os direitos humanos e o direito internacional público” não se segue um “bom caminho”.
Na encíclica intitulada “Magnifica Humanitas” (A magnífica humanidade), Leão XIV apela ao desarmamento da inteligência artificial (IA) perante uma escalada global de conflitos, rejeitando a legitimação do poder face ao direito internacional.
“Nenhuma guerra é justa, a guerra não é justa, mas de facto há regras próprias para se proceder inevitavelmente a algum conflito, nomeadamente o respeito pelo interlocutor, nomeadamente o grau de proporcionalidade e a questão maior e fundamental que é a legítima defesa”, disse Sílvia Mangerona.
A politóloga observa que o Papa vem dizer que é necessário desarmar a guerra e a palavra, destacando o documento “é um lembrete muito importante para a polarização”, para o caminho que sociedade está a levar.
“E a inteligência artificial aí é um instrumento que pode desequilibrar muito esta arma da palavra, que é alterar a veracidade, retirar a humanidade à conversa, ao descobrimento do conhecimento e, portanto, desarmar a guerra e desarmar a palavra”, indicou.
A “Magnifica Humanitas” é dedicada à “salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial” e foi assinada simbolicamente a 15 de maio para assinalar o 135.º aniversário da ‘Rerum Novarum’, encíclica de Leão XIII que inaugurou a chamada Doutrina Social da Igreja.
A docente universitária rejeita que o documento venha condenar as novas ferramentas tecnológicas, mas o lugar que estão a assumir na vida de cada um.
Esta nova encíclica não quer diabolizar a inteligência artificial, nem as tecnologias, penso que é uma chamada de atenção para a forma como nós estamos a lidar com elas, a colocá-las no centro, quando no centro deve estar o humano, deve estar a humanidade, deve estar a nossa condição de ser humano e em relação com os outros”, assinalou.

O texto de Leão XIV denuncia também a concentração de dados e poder nas empresas tecnológicas, com um aumento do fosso entre ricos e pobres.
“Como diz o Papa, pode ser aqui caminho para muitas dificuldades, nomeadamente saber que podemos estar a entregar o poder a poucos, sem os conhecer efetivamente, sem saber quais são as suas intenções. E creio que foi nessa senda também que o nosso Papa quis fazer aqui aliança, nomeadamente na apresentação da encíclica, com um dos cofundadores da Antropic, de uma grande empresa tecnológica internacional, transnacional”, indicou.
Para Sílvia Mangerona, ao reunir uma série de cientistas, ao unir a fé e a razão, o Papa chamou para ele, para a Igreja e para o mundo a “necessidade de conversa entre todos, independentemente se são crentes ou não crentes”.
Ao comentar a encíclica, a politóloga debruçou-se ainda sobre as verdades, realçando que as novas ferramentas não só as questionam, “como as manipulam de forma traiçoeira”.
“Temos mesmo que fazer aqui pausas e pensar efetivamente para que caminho queremos levar estas novas tecnologias e estas novas ferramentas que não têm que ser diabolizadas, têm que ser incluídas, mas têm que ser colocadas em segundo lugar. Primeiro, estamos nós, a comunidade e o ser em relação”, frisou.
“Magnifica Humanitas” é a 301.ª encíclica na história da Igreja Católica, grau máximo das cartas que um Papa escreve.
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«Magnifica Humanitas»: Papa exige desarmamento tecnológico e rejeita teoria da «guerra justa»
