Tony Neves, em Roma

O incêndio que devorou o campo de refugiados de Moria, na Ilha de Lesbos, ‘queimou’ o coração da humanidade. E roubou o pobre abrigo a quem já vivia em condições infra-humanas. Cerca de 13 mil pessoas aguardam, há tempos infinitos, por uma decisão de acolhimento por parte da União Europeia. Fugiram de guerras como a Síria e de situações catastróficas como o Afeganistão. Foram chegando aos magotes a esta Ilha grega que funciona como um muro da Europa. Após promessas atrás de promessas que não foram cumpridas, eis que aquela ‘bomba relógio’ explodiu na quarta feira (9 de setembro) quando se soube que ali havia 35 casos de covid. Tantos milhares de pessoas amontoadas em tão pouco espaço seriam pasto fácil para uma contaminação total, com consequências também dramáticas para o resto da população da Ilha, tal a alta velocidade previsível do alastramento da pandemia.  E tudo o fogo devorou, as pessoas puseram-se em fuga, instalou-se o caos, a Ilha ficou sob ‘estado de emergência’ e os holofotes dos media foram todos apontados para ali. Resultados? Veremos, mas é claro que é preciso agir e em força para evitar uma catástrofe humana sem precedentes.

O mundo não anda saudável. Não me refiro só à covid 19, mas aos corações empedernidos de quem se julga senhor da terra e com direito de fechar portas a quem venha de outras paragens do globo. O P. José Castro Oliveira, missionário que quase perdeu a vida na explosão de uma mina em Angola, escreve: ‘Também a tenda do nosso País não tem sido muito pacífica com as levas de emigrantes que a têm demandado nos últimos anos e como a bandeira do racismo tem sido agitada nos últimos tempos. Habituados como estávamos a enviar gente para todos os cantos do mundo, não tem sido fácil tornarmo-nos agora porto de abrigo, mesmo que sejamos reconhecidos como povo acolhedor. Para que tal aconteça, temos de reconhecer a radical fraternidade de todos os homens, porque todos temos o mesmo Pai, cuja casa está aberta a todos os povos!’

Faço minhas as palavras do P. José Castro, enquanto espero com expectativa a próxima encíclica do Papa que afirma logo no título que somos todos irmãos (Fratelli tutti).  Seremos salvos pela fraternidade se nos assumirmos todos como filhas e filhos de Deus.

Outro nome emblemático da família Espiritana, o P. Joaquim Alves Correia, escreveu um livro que ainda está por cumprir: ‘A largueza do Reino de Deus’, publicado em 1931. Quando olhamos para Deus, ficamos boquiabertos com o tamanho do seu abraço que aquece toda a gente. Quando nos olhamos como humanos, ficamos tristes com a tacanhez do nosso abraço, com a catalogação que exclui muitos e com a incapacidade de acolher e de amar. Se somos todos irmãos, porque é que erguemos muros e não apostamos na construção de pontes?

George Orwell é conhecido pela frase que consta na ‘Quinta dos Animais’: ‘todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros!’. Traduz bem o estado actual do mundo, pois é uma máxima que se vai aplicando por aí, corando-nos de vergonha. Eu tenho mais direito de estar em paz e viver em boas condições económicas só porque nasci na Europa ou no norte da América? Porquê?

A minha experiência missionária tem feito de mim um emigrante, pois já vivi em França, em Angola e em Itália, sempre como cidadão estrangeiro. E tenho visitado muitos outros países, lá onde os Espiritanos vivem e trabalham. Devo confessar que nunca me senti fora de casa, tal a preocupação de hospitalidade de quem me acolheu. E era este o sentimento profundo que eu gostaria de ver praticado em todo o mundo. Sonhar com um mundo sem fronteiras é utopia, mas acreditar na fraternidade universal faz todo o sentido. Por estes valores civilizacionais lutarei até ao fim… Estou convencido de que esta é uma causa pela qual vale a pena dar a vida…

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