Tony Neves, em Roma

Dom Dieudonné Nzapalainga, Missionário Espiritano, 55 anos, é o mais jovem Cardeal da Igreja. Natural da República Centro Africana (RCA), é o Arcebispo de Bangui, a turbulenta capital de um país a ferro e fogo.

Este Cardeal arriscou ( e continua a arriscar) a vida para conseguir a pacificação do seu povo, num país dividido e martirizado por diversos grupos armados que matam, destroem e semeiam o pânico entre as populações pobres e indefesas. O mais grave desta guerra está no facto dos grupos armados se auto-proclamarem religiosos. Matam e destroem em nome da fé, o que é uma barbaridade, como sempre repete.

Em 2013, surge a Plataforma Inter Religiosa para a Paz, liderada pelas três grandes  autoridades religiosas locais: o Arcebispo Dieudonné, o Imame Omar Kobine Layama e o Pastor Nicolas Gbangou. Percorreram boa parte do país para reunir as pessoas e tentar convencê-las a pôr de parte a vingança e construir um futuro de paz.

A violência, porém, não acabou. A Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Bangui, foi palco de um dos atentados mais assassinos, a 1 de maio de 2016, festa de S. José Operário. Um bando rebelde atacou a Igreja durante a Missa, disparando sobre os padres e o povo. Mataram um Padre e seis fiéis. Em 2017, um grupo de rebeldes armados atacou a cidade de Bangassou, terra natal do Cardeal Dieudonné. O ano seguinte, 2018, voltou a ser terrível. Alindao, outra cidade, foi barbaramente atacada e seis dezenas de pessoas foram massacradas. No Paço Episcopal mataram dois padres. D. Dieudonné deslocou-se a Alindao e, no regresso a Bangui, deu uma conferência de imprensa juntamente com o Imame Layama, começando por gritar: ‘nós não nos podemos calar!’ E, estes dois líderes denunciaram a incapacidade das forças governamentais e dos militares internacionais de pararem com as barbaridades deste grupo armado que agia com total impunidade, aterrorizando as populações indefesas. Falaram ainda da desnutrição da população em geral, pedindo apoio urgente da comunidade internacional.

O Papa Francisco fez de D. Dieudonné, a 19 de novembro de 2016, o cardeal mais jovem da Igreja. Tornou-se assim uma figura procurada pelos media. O jornalista-repórter francês, Laurence Desjoyaux, arriscou acompanha-lo numa das suas visitas ao interior da RCA e, após longos dias de conversas, publicou, em 2021, o livro ‘Eu vim trazer-vos a Paz’. O combate de um cardeal coragem no coração do caos’. O sucesso foi enorme e eis que surge agora a edição italiana que está a obrigar o Cardeal a percorrer este país, fazendo conferências de apresentação, dando a conhecer a situação difícil que o seu país atravessa. Será o Cardeal Dieudonné o presidente da celebração da Missa de Pentecostes, a 5 de junho, na Casa Geral dos Espiritanos em Roma.

Também o mundo do cinema despertou para a importância da figura deste jovem Cardeal. O realizador suíço Manuel Vun Sterler passou longos tempos na RCA e, de forma mais ou menos discreta, filmou muito. Quando o Cardeal se deslocava ao interior, aí o realizador entregava as máquinas a um jornalista local que captava as imagens possíveis. O resultado de todo este trabalho é o filme ‘Siriri’, palavra que quer dizer ‘paz’ na língua sango, a mais falada na RCA. Tudo começa com imagens terríveis de um atentado sangrento durante uma Missa. Depois, há muitas viagens floresta adentro, sempre com o cardeal ao volante do seu jeep. Chocantes são as conversas nas vilas e cidades do interior, lá onde os ataques fizeram vítimas e espalharam o terror. Na maioria das viagens e encontros, estão presentes o Cardeal e o Imame Layama. A imagem de marca deste filme é a cumplicidade entre estes dois líderes religiosos capazes de correr todos os riscos para que a paz possa acontecer.

Se o filme começa com uma celebração interrompida pelo terror de um ataque, termina com uma celebração a Maria à luz de velas. Há a convicção de que este esforço de diálogo inter-religioso evitou um genocídio, mas a paz continua ainda uma miragem.

Quando perguntam ao cardeal se não tem medo de morrer, ele responde com a frase que proferiu aos seu pais: ‘Não posso ter medo de perder a vida, porque a minha vida já foi dada!’.

 

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