Tony Neves, em Angola

Luanda abriu-me os musseques de par em par para eu entrar e ali partilhar a Missão que os Espiritanos vivem há muitos anos. O Prenda e o Rocha Pinto são ‘bairros’ muito pobres, a abarrotar de gente que fugiu à guerra e encostou à capital, sempre à procura de oportunidades que, na maioria dos casos, não surgiram. Há milhares e milhares de pessoas, na sua maioria crianças e jovens, que vivem ali nas suas casas pequenas, sem ruas asfaltadas, sem água canalizada nem esgotos funcionais, sempre à mercê de malárias e cóleras que, ciclicamente, fazem as suas vítimas. Mas estes bairros são, sobretudo, espaços de vida de gente boa, lutadora de manhã à noite e, regra geral, com uma Fé muito praticante. Assim, pude animar formações de ‘justiça e paz’ com dois grupos da Paróquia de S. Pedro do Prenda e um outro da Senhora da Paz, no Rocha Pinto. E, no domingo, presidi a uma Missa com largas centenas de pessoas no Prenda e participei no almoço da festa da Paróquia da Senhora da Paz. O trabalho pastoral que os Espiritanos ali coordenam é de enorme dimensão.

De Luanda rumei a Ndalatando, a cidade que nasceu com o nome de Salazar. A antiga Missão é hoje a Catedral da Diocese e ali trabalham, desde sempre, os Espiritanos. Pude participar numa longa e muito animada Procissão da Senhora de Fátima que percorreu caminhos apertados de terra batida num dos musseques até chegar à ‘cidade colonial’ e terminar na Catedral. No dia seguinte, presidi à Missa na catedral, cheia de gente e animei mais uma sessão de ‘justiça e paz’, contando com a presença dos missionários vindos das Missões dos Dembos e do Golungo Alto.

Kalandula, a antiga Duque de Bragança, famosa pelas monumentais quedas do Rio Lucala, acolheu-me de seguida. Depois da obrigatória ‘sessão fotográfica’ em cima das pedras por onde passa a água antes de cair… pude reencontrar missionários e missionárias que chegaram a Angola há mais de 50 anos, como é o caso do P. Manuel Viana e da Irmã Joaquina, das Dominicanas do Rosário. O exercício de sentar e ouvir histórias enche a alma de quem quer que passe.

Malanje era fim de linha antes de um regresso a Luanda para rumar a sul. Ali, os momentos de encontro com missionários, jovens candidatos ao sacerdócio ou á vida religiosa, professores, leigos comprometidos, jovens… foram de muita riqueza, pela esperança que se lê em cada palavra e cada olhar.

Andar sempre de carro traz a vantagem de longas viagens e conversas plurais. Também enche os olhos da beleza das paisagens. Permite avaliar o desenvolvimento em curso e as debilidades que ainda se notam. Proporciona encontros com muita gente. Os pontos de chegada e de partida, Missões Espiritanas, permitem perceber o momento que Angola vive, a esperança que toma conta deste povo, mas também as angústias que as pessoas trazem no coração.

Depois deste norte, avanço para sul: Benguela, Lobito, Huambo, Chinguar, Kuito, Lubango.. serão as próximas etapas desta ‘peregrinação’ por terras de Angola.

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