O terrorismo, o confronto EUA/Irão, e a convivência de uma mulher católica em ambiente maioritariamente islâmico são temas para a entrevista com a professora de Filosofia no Egito, há 14 anos.

Foto: Joana Bourgard/RR

Lisboa, 17 jan 2020 (Ecclesia) – Catarina Belo, professora de Filosofia no Egito há 14 anos, disse em entrevista à Agência ECCLESIA e à Renascença que o terrorismo é sobretudo político e que está a crescer um “novo Islão” na Europa, “mais pluralista”.

“No Médio Oriente os muçulmanos são maioritários, na Europa são minoritários e as circunstâncias políticas são diferentes. Acho que há outras experiências, até em termos teológicos, de pensar a integração e como viver o Islão em contexto minoritário e em certos aspetos mais pluralista”, afirmou.

Para Catarina Belo, a maioria da população muçulmana está a integrar-se na Europa acabando por seguir o secularismo, onde “praticam a religião, mas não a impõem”.

A professora de Filosofia Medieval Islâmica defendeu que o Islão na Europa “será um islão diferente”.

Questionada sobre diálogo entre os líderes religiosos, Catarina Belo lembrou que há vários tipos de Islão, onde não existe, como na Igreja Católica, um Papa, que representa todos os católicos.

“No Islão, cada muçulmano pode representar todo o Islão e a questão da autoridade é diferente, como é diferente no sunismo e no xiismo”, afirmou.

Foto: Joana Bourgard/RR

Catarina Belo defende que a questão política é “mais importante” que a questão religiosa na promoção da paz, afirma que é necessário conhecer a “diversidade religiosa” de cada país e diz que o ataque dos EUA ao Irão, matando o dirigente iraniano Soleimani “foi um ataque a um nível muito alto”

“Isto só vai exacerbar os problemas, os próprios iranianos disseram que pode enfraquecer momentaneamente o Irão, mas vai fortalecer alguns grupos radicais sunitas, como a Al Qaeda, ou o Estado Islâmico. É uma situação muito complexa”, afirmou.

Na entrevista desta semana Ecclesia/Renascença, Catarina Belo disse que o terrorismo “é um fenómeno muito complexo”, com “muitos atores”, acrescentando que “as primeiras vítimas do terrorismo de caráter islâmico são os próprios muçulmanos”.

As referências islâmicas em Portugal e a atualidade das questões muçulmanas motivaram Catarina Belo para o estudo da Filosofia Islâmica, que descobriu na biblioteca da família e estudou depois nas universidades em Lisboa, Londres e Oxford, para ser, desde 2006 professora na Universidade Americana do Cairo.

“É uma área que ainda precisa de mais investigação e de estudo, ainda há muita coisa para fazer e quem se quiser dedicar tem ali muito trabalho e temas muito interessantes”, afirmou.

Questionada sobre a sua integração em ambiente maioritário muçulmano, a professora de Filosofia diz que vive num contexto onde a diversidade religiosa, nomeadamente cristã, “é impressionante”, apesar de ser minoritária

Catarina Belo, filha do poeta Ruy Belo, que o cardeal D. José Tolentino Mendonça considerou “um dos escritores mais espirituais do séc. XX português”, referiu-se ainda à ‘Casa Ruy Belo’ e disse que deverá abrir em Óbidos no próximo verão.

A entrevista ECCLESIA/Renascença é semanal, publicada nas respetivas páginas da internet em cada sexta-feira e emitida na Renascença entre as 13h00 e as 14h00 do mesmo dia.

(Entrevista conduzida por Ângela Roque, da Renascença, e Paulo Rocha, da Agência ECCLESIA)

PR

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