O sacerdote maronita Maroun Youssef Ghafari decidiu permanecer ao lado da sua comunidade

Lisboa, 12 mar 2026 (Ecclesia) – O sacerdote maronita Maroun Youssef Ghafari, pároco da aldeia cristã fronteiriça de Alma Sha’b (Líbano), decidiu permanecer ao lado da sua comunidade, apesar do “perigo e do número crescente de mortos e feridos”.
Desde que começou a escalada do conflito no Médio Oriente, no final de fevereiro, a fronteira sul do Líbano voltou a ser “uma linha da frente de guerra” e, esta quarta-feira, o Papa Leão XIV prestou homenagem ao padre Pierre El Raï, que morreu nesta segunda-feira, vítima de bombardeamentos pelas forças de Israel.
Na passada segunda-feira, dia 9, morreu no sul do Líbano o padre Pierre El Raï, 50 anos, sacerdote maronita da aldeia cristã de Qlayaa, no distrito de Marjayoun, e que colaborava com a Fundação AIS.
O Papa recordou, perante milhares de fiéis que se encontravam na Praça de São Pedro, no Vaticano, as circunstâncias em que o padre Pierre perdeu a vida.
“Assim que soube que alguns paroquianos tinham ficado feridos num bombardeamento, correu sem hesitar para os ajudar”, disse o Papa Leão, pedindo as orações de todos pela paz no Irão e em toda a região do Médio Oriente.
Embora o sul do Líbano seja maioritariamente xiita, existem na região várias aldeias predominantemente cristãs, como Qlayaa, Marjayoun ou Alma Sha’b. Apesar da intensificação dos combates na zona e das ordens de evacuação israelitas, muitos dos seus habitantes optaram por permanecer nas suas terras, casas e igrejas, por temerem, caso partam, que os seus bens possam ser destruídos e os seus campos devastados
Alma Sha’b está localizada a dois quilómetros da fronteira com Israel. Antes do recomeço dos combates, cerca de 350 habitantes ainda viviam na aldeia. Hoje, cerca de 100 pessoas – adultos, crianças e idosos – optaram por ficar. À frente da paróquia, o maronita Maroun Youssef Ghafari explica: “Apoiamos os habitantes nesta decisão de ficaremos apesar da guerra”.
O pároco lembra que a aldeia já pagou um pesado tributo neste recorrente conflito no país.
“Sofremos a destruição de 90% das casas quando fomos obrigados a partir completamente no final de Setembro de 2024. Estávamos convencidos de que, se partíssemos novamente, por qualquer motivo, não seríamos autorizados a voltar e que o que restasse seria novamente destruído”, disse.
A morte do seu irmão marcou profundamente a comunidade. Sami Ghafari, de 70 anos, foi morto enquanto se encontrava no seu jardim em Alma Sha’b.
Representantes da Fundação AIS tinham visitado esta aldeia durante a trégua entre Israel e o Hezbollah, em Novembro de 2024, antes, portanto, da atual escalada da violência, e celebraram a missa com a comunidade paroquial local. Sami Ghafari estava entre os fiéis presentes nessa eucaristia.
“Perder um cidadão libanês que amava profundamente a sua terra e que não tinha nada a ver com o conflito, e que também era meu irmão, mergulha-nos numa imensa tristeza”, confessa o Padre Ghafari à AIS.
“A guerra só deixa para trás destruição, morte e deslocados”. E acrescenta: “Como padre e cristão, considero Sami um mártir. Ele foi assassinado. O Padre Pierre El Raï, padre maronita de Qlayaa, também perdeu a vida ao serviço da sua paróquia. Rezamos para que as suas almas descansem em paz e que a sua memória se torne uma fonte de consolo e força para as nossas comunidades”, diz.
Ao escolher ficar, estes cristãos libaneses mostram que a presença cristã no Médio Oriente não é apenas uma realidade demográfica, mas uma presença viva assumida por homens e mulheres que testemunham a sua fidelidade à sua fé e à sua terra.
LFS
