Jesuíta português, há um ano e meio no país, testemunha tensão e generosidade da população libanesa

Foto: Lusa

Beirute, 12 ago 2020 (Ecclesia) – O padre Rui Fernandes, jesuíta a viver há um ano e meio em Beirute, no Líbano, disse hoje que a sociedade contrasta entre uma “grande tensão” e gestos de generosidade e cuidado.

Há um sentimento de «escapamos»: é o verbo, ainda cá estamos”, afirma o jesuíta português que se encontra a escrever uma tese de doutoramento na capital libanesa.

A comunidade jesuíta onde o padre reside ficalocalizada a 15 minutos a pé do local da explosão” que aconteceu no porto de Beirute, no dia 4, e que provocou a morte a cerca de 160 pessoas e feriu outras seis mil.

O padre Rui Fernandes dá conta de “muita tristeza” por ver “uma zona de Beirute muito característica parecer um ambiente de guerra, de destruição”, mas encontra muito “pragmatismo” e uma “capacidade de organização” que mostra a resiliência da população.

A gravidade da situação mostrou a prontidão dos gestos de generosidade. As ruas estão inundadas de vidros e a banda sonora são estilhaços a ser varridos. Mas a cidade está inundada de voluntários, universitários, escuteiros católicos e muçulmanos, a Cáritas e o Banco alimentar, as pessoas andam de máscara e vassoura na mão a apanhar vidros, a ver se outros precisam de medicamentos e alimentos”, indica.

No dia da explosão, recorda, “com uma sociedade em pantanas, com feridos aos milhares, um amigo libanês voluntario da cruz vermelha” bateu à porta da comunidade jesuíta, “para saber se estava tudo bem”.

O futuro é imprevisível mas há um lado que mostra uma energia e vontade de viver. As pessoas foram vítimas de uma explosão mas não se sentem vítimas, são gente muito bem formada e generosa. As pessoas têm recursos e por isso há aqui muito futuro”, sublinha.

Perante um quadro de incerteza, o padre Rui Fernandes fala na expetativa da ação da comunidade internacional.

A comunidade internacional tem um papel importante. O xadrez internacional tanto tem aspetos positivos, como se percebe, também, um desejo de um grito de libertação”, indica.

Desde que ali chegou, para escrever uma tese de doutoramento, afirma sentir uma grande tensão, face ao descontentamento generalizado de uma “grave crise económica”, um “desejo de mudança” para resolver “a falta de serviços básicos”.

Há uma falta de serviços básicos como água, eletricidade, estradas e saúde, direitos fundamentais, diríamos, que estão pouco atendidos ou são atendidos de forma ineficaz pelos governos sucessivos e a causa fundamental é, dizem, a corrupção”, explica.

A instabilidade, reconhece, decorre de um “modelo político e social” que apresenta “proximidade com diferentes religiões e dentro das religiões, a várias tradições, que não ajudam e que levam a relações menos transparentes”.

Se nos primeiros meses em Beirute o padre Rui Fernandes acompanhou manifestações massivas “mas pacíficas” onde “novos e velhos se juntavam”, num clima “quase de festa” com diferentes pessoas “sunitas, cristãos ortodoxos” a discutir ideias, desde dezembro de 2019 que “as manifestações se tornaram mais violentas”.

Há um ambiente de grande tensão e insatisfação política”, destaca.

Com a queda do governo, e sucessivas manifestações, “as pessoas chegaram ao limite da paciência”.

Havia uma expetativa em relação ao governo, a crise agravou-se muito e o Covid-19 não ajudou, estamos com índices de desemprego muito altos, há dificuldades de aceder ao dinheiro nos bancos e torna-se difícil fazer transferências, até para pagar a Internet”, relata.

Afifa, uma senhora vizinha da comunidade, que aguarda nos próximos dias a chegada de dois jesuítas americanos para se juntarem aos quatro que ali residem, afirmou há dias «já chega de ais», dá conta o padre português.

Há um sentimento de que a sociedade libanesa não é só isto, mas um país com uma geografia e pessoas muito bonitas”, conta.

LS

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