Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: «Encontrámos aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas: Jesus, filho de José de Nazaré.» Então disse-lhe Natanael: «De Nazaré pode vir alguma coisa boa?» Filipe respondeu-lhe: «Vem e verás!» Jesus viu Natanael, que vinha ao seu encontro, e disse dele: «Aí vem um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento.»
Disse-lhe Natanael: «Donde me conheces?» Respondeu-lhe Jesus: «Antes de Filipe te chamar, Eu vi-te quando estavas debaixo da figueira!» Respondeu Natanael: «Rabi, Tu és o Filho de Deus! Tu és o Rei de Israel!» (Jo 1, 45-49)

”De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” — O que Nataniel diz não pretende ser outra coisa senão um trocadilho, uma piada. É um homem que usa o sarcasmo com sabedoria e humor delicado. É verdade que os retratos que vemos de Jesus espelham sempre a ausência de um homem bem humorado, mas se o Cristianismo é uma espiritualidade da alegria — basta pensar no sorriso de santos dos nossos tempos como S. João Paulo II ou Santa Teresa de Calcutá — não parece difícil pensar em Jesus como alguém com um bom humor.

Aliás, vê-se pela resposta que, se fosse se um Jesus sério diria — ”Nataniel, não deves dizer essas coisas dos outros.” — Não. Jesus diz (adaptando à linguagem de hoje) — ”Ora aí está um Israelita em quem posso confiar!” — não sendo difícil imaginar Jesus com um sorriso nos lábios. Porém, não deixa de ser curioso como é raro ver na arte sacra Jesus a rir ou sorrir.

Desenho de Willis Wheatley (canadiano)

A alegria é essencial para a vivência de qualquer espiritualidade. Estar em contacto com Deus é estar alegre. Quem leva a religião com uma seriedade de morte está morto a sério. Como podemos viver a espiritualidade a sério se não nos rirmos, ou sorrirmos um pouco mais do que o costume?

O que nos faz pensar em Jesus de um modo tão sério? De facto, basta recordar como nas celebrações da Páscoa assistimos, muitas vezes, a comunidade no final dizer (com uma cara bem séria) — ”Amén. Aleluia. Aleluia.” — em vez do entusiasmo e alegria que a ressurreição traz à nossa vida de modo tão intemporal — ”Amén! Aleluia! Aleluia! :)” — Sim. Os emojis vieram ajudar a expressar mais alguma emoção na escrita.

Importa reconhecer que o humor é algo localizado na cultura e no tempo. Por isso, o que é piada para um Brasileiro, ou um Angolano, pode não ser para um Português. Ou uma piada dos anos 70 do século passado produzir o mesmo efeito 50 anos depois.

Nem sempre uma piada de cariz religioso, fora do clima, cultura ou tempo, pode produzir o efeito nos outros que produziu em nós. Muitas vezes depende do contexto e da pessoa que nos contou. Ou então, se o outro está num momento de concentração, ou a viver uma situação séria, contar-lhe uma piada pode não ser a melhor estratégia para o tirar do sério. O humor exige delicadeza e torna-nos humanos.

Os psicólogos afirmam que uma pessoa sem sentido de humor seria incapaz de se relacionar com os outros. Nada há nos Evangelhos que nos faça crer que Jesus seria incapaz de se relacionar com os outros. E se Ele é verdadeiramente homem, então, só poderia ter um sentido de humor. Imitando-O, São Lourenço que celebrámos no dia 10 de agosto é o patrono dos humoristas. Porquê?

O Imperador Valeriano pediu a S. Lourenço para que lhe entregasse as riquezas da Igreja, e este pediu-lhe três dias. Durante esse período reuniu todos os pobres da cidade, e apresentou-os como a riqueza da Igreja ao Imperador. Ofendido por S. Lourenço, condenou-o ao martírio, queimando-o sobre uma grelha. Diz a história que S. Lourenço terá dito — ”É melhor virarem-me. Este lado já está passado.”

Podemos pensar que rir é humano, mas talvez mais profundo do que isso, rir torna-nos humanos.


Recomendo: “Between Heaven and Mirth: Why Joy, Humor, and Laughter Are at the Heart of the Spiritual Life” do jesuíta James Martin SJ (HarperOne, 2012)

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