Jornalista José António Santos destaca dimensões da primeira deslocação a Portugal e «curiosidade» pelo Papa de porte atlético» e olhar «penetrante»

Lisboa, 21 mai 2022 (Ecclesia) – José António Santos, jornalista que acompanhou a visita de João Paulo II a Portugal em 1982, disse que as celebrações em Fátima “marcam indelevelmente” a sua ligação, estabelecendo “um vínculo que não mais o deixa”.

“João Paulo II tinha definido que seria uma viagem de peregrinação. Um ano antes tinha sofrido o atentado e pediu a documentação de Fátima, porque intuía que a sua vida tinha sido poupada por intervenção de Fátima. Vai a Fátima como peregrino entre peregrinos”, sublinha à Agência ECCLESIA o antigo jornalista do jornal «Diário de Notícias».

Com tarefas para acompanhar o Papa na peregrinação de maio em Fátima e em Braga, José António Santos recorda que a procissão do adeus à Virgem, no dia 13, surpreende João Paulo II.

“No final das celebrações do dia 13 há a procissão do adeus e, no alto da escadaria, de um momento para o outro, ele vê o mar de lenços brancos. Eu estava perto e vi o seu olhar e percebi que ele ficou surpreendido. Que coisa era aquela? No Vaticano isso não acontecia. Ele vê os lenços brancos, hesita, leva a mão ao bolso tira o lenço e timidamente começa a acenar. Se virem essas imagens, vê-se que, nesse momento, ele experimentou uma comoção. Nesse gesto talvez ele estivesse a ver o que viveu no atentado um ano antes, afirma.

A viagem do Papa polaco em 1982 é marcada também pelo atentado do padre Juan Fernandez Krohn a João Paulo II, prontamente impedida pela equipa de segurança que “travou a intenção e tirou uma baioneta com 40 cm de comprimento”.

“O padre foi preso e levado para a esquadra da PSP. Os jornalistas souberam disto pelo contacto que tinham com as redações. O reitor do Santuário, o monsenhor Luciano Guerra, foi ao microfone anunciar aos peregrinos que nada se passava, que um padre tinha escorregado e João Paulo II se tinha curvado perante ele para tentar saber o que se tinha passado. A cerimónia seguiu, ninguém praticamente se apercebeu do que se passou. O local onde isto aconteceu era pouco iluminado e duvido que muita gente tivesse visto a baioneta, tal a eficiência da segurança”, recorda.

O jornalista explica ainda que o “episódio que não teve influência na peregrinação e mesmo no dia seguinte, já com a imprensa na rua a dizer que tinha havido um atentado, os peregrinos que lá passaram a noite, no dia seguinte não sabiam de nada”.

José António Santos recorda que Portugal parou para acompanhar as cerimónias, muitas pela televisão: “restaurantes e cafés estavam fechados”, as ruas estavam desertas perante um Papa “de porte atlético” e “olhar penetrante”.

Se a centralidade da visita a Portugal esteve em Fátima, o jornalista recorda outras dimensões importantes nos quatro dias de visita, nomeadamente o “encontro com os jovens em Lisboa, porventura o elemento do programa mais significativo na sociedade portuguesa”, mas também “a preocupação com as famílias, reservada para as cerimónias no Sameiro, em Braga”, o encontro com os trabalhadores, em Vila Viçosa, um encontro ecuménico, em Lisboa, e “com as elites”, patente nos encontros na universidade de Coimbra e na universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

“A centralidade da peregrinação, ocorre em Fátima no 12 e 13 de maio, sobretudo com a consagração da humanidade à Virgem, onde ele entrega os padecimentos da humanidade: o mundo vivia a guerra das Malvinas, ele estava preocupado com os movimentos na Polónia e isso tudo está parente no texto que ele lê em Fátima. Mas a viagem tem outras dimensões marcadas pelos gestos e encontros que realiza”, indica.

José António Santos recorda a curiosidade em torno de um homem, simultaneamente “chefe de estado do Vaticano” e líder da Igreja.

“Quando João Paulo II vem a Portugal, já tínhamos quase 10 anos de 25 de abril, e os oito anos de liberdade representaram um grande crescimento e é esse Portugal que ele vem encontrar e apoiar. Quando se encontra com os académicos, em Coimbra e em Lisboa, faz referências à importância da ciência, do conhecimento e do desenvolvimento da pessoa humana. Ele diz que o poder só tem sentido se tiver ao serviço da pessoa. Ao encontrar-se com os trabalhadores vem dar sentido e dignidade, e promover as condições de trabalho, fala para a família e diz que a família está em crise. É uma luz e um farol que se aponta para caminhos novos. Tendo consciência da realidade mas também da esperança e da capacidade de os encarar à luz do espírito evangélico”, sublinha.

A entrevista a José António Santos faz parte do Programa ‘70×7’ deste domingo (22 de maio), que vai recordar a visita do Papa João Paulo II a Portugal, há 40 anos, a partir das 17h25, na RTP 2.

LS

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