Inteligência Artificial: Vaticano desafiado a transformar «princípios da Magnífica Humanidade em instituições»

Encontro juntou investigadores, cientistas e docentes num diálogo «direto» com a Igreja e pediu «regras vinculativas, instituições capazes de verificar e uma pessoa que responda por cada decisão que uma máquina ajude a tomar»

Cidade do Vaticano, 30 out 2026 (Ecclesia) – O Vaticano acolheu um encontro entre cientistas e especialistas em inteligência artificial e foi desafiado a “transformar os princípios” sugeridos na «Magnifica Humanidade» em “instituições”.

“A inteligência artificial é algo que criamos, pelo que continua a ser algo que podemos governar. A questão agora é para que serve a inteligência artificial e quem responde por ela. Cientistas, engenheiros e juristas pediram à Igreja que ajudasse a transformar os princípios da «Magnifica Humanitas» em instituições. Esse é o trabalho que temos pela frente: manter a pessoa humana no comando das ferramentas que criamos”, afirmou o padre Paolo Benanti, da Fundação RenAIssance e da Universidade Livre Internacional de Estudos Sociais, em Roma, citado num comunicado da Santa Sé, enviado hoje à Agência ECCLESIA.

«Há anos que estamos de acordo quanto aos princípios. O que as pessoas que criam e estudam estes sistemas pediram hoje é mais difícil: regras vinculativas, instituições capazes de verificar e uma pessoa que responda por cada decisão que uma máquina ajude a tomar”, assinalou ainda.

O encontro promovido pela Pontifícia Academia para a Vida e pelo Instituto para o Futuro da Vida, quis ser um local e “diálogo entre diferentes perspetivas.”

O presidente da Pontifícia Academia para a Vida reconheceu o caminho diverso que “cientistas, instituições e a Igreja abordam” na IA, mas se encontram a “questão fundamental”: “Como podemos orientar o seu desenvolvimento para que permaneça genuinamente ao serviço da pessoa humana e do bem comum?”, indagou o arcebispo Renzo Pegoraro.

Max Tegmark, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, alertou para o facto da “primeira espécie a poder conceber os próprios descendentes”.

“A IA estará no comando, não os humanos. Com uma forte liderança moral, o Vaticano pode ajudar a orientar o desenvolvimento da IA para um caminho mais favorável ao ser humano”, pediu.

O diálogo “direto” entre “académicos participantes e a Comissão do Vaticano sobre Inteligência Artificial”, permitiu um debate sobre “como preservar um controlo humano significativo à medida que os sistemas de IA se tornam cada vez mais autónomos; como garantir a segurança e a fiabilidade; como a responsabilidade humana pode permanecer claramente identificável; e como os princípios éticos podem traduzir-se em salvaguardas eficazes, mecanismos de verificação e formas de governação”.

“O diálogo abordou também questões mais amplas relativas ao trabalho, à liberdade, à concentração de poder tecnológico, às desigualdades globais e à relação entre a inovação tecnológica e a dignidade humana”, assinala o comunicado, sobre o encontro com o tema «O Futuro da IA: Um Diálogo entre o Vaticano e o Mundo Científico sobre os Desenvolvimentos e as Aplicações das Tecnologias Inteligentes».

As discussões abordaram ainda “possíveis consequências da IA avançada para a dignidade humana, as estruturas sociais, as instituições internacionais e a futura relação entre os seres humanos e as tecnologias inteligentes”.

A Comissão sobre Inteligência Artificial foi criada pelo Papa Leão XIV com o objetivo de “promover a coordenação entre as instituições do Vaticano que abordam as implicações da IA para a humanidade e para a Igreja” e o encontro concretiza o compromisso da Santa Sé com as “implicações éticas e humanas da inteligência artificial, incluindo o apelo de Roma pela Ética da IA”.

O cardeal Michael Czerny, prefeito da do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que no primeiro ano preside à Comissão Interdicasterial sobre Inteligência Artificial afirmou a importância de “ouvir todos aqueles que trabalham na área — na investigação, nas empresas, na política”, para que a reflexão conjunta possa ajudar a Igreja a “cumprir a sua missão pastoral e profética, dando testemunho da dignidade da pessoa humana e promovendo o bem comum, garantindo que as pessoas e comunidades vulneráveis não sejam deixadas para trás”.

LS

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