Igreja: «Só no estabelecimento e no restabelecimento da relação com Deus o ser humano encontra a verdadeira paz», afirma patriarca de Lisboa

D. Rui Valério participou na V Jornada de Espiritualidade Eucarística, em Bragança

Foto: Patriarcado de Lisboa

Lisboa, 11 jun 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, interveio esta quarta-feira na V Jornada de Espiritualidade Eucarística, em Bragança, destacando que a paz nasce da justa relação entre a criatura e o criador e realçando o seu lugar na Eucaristia.

“A paz não é apenas uma condição da existência reconciliada; ela nasce do encontro. Só no estabelecimento e no restabelecimento da relação com Deus o ser humano encontra a verdadeira paz”, afirmou, no discurso proferido na Escola Secundária Emídio Garcia.

O patriarca foi o responsável por fazer a intervenção principal da manhã da iniciativa, dividindo-a em quatro partes.

Uma delas foi dedicada à relação entre a paz, verdade e liberdade, durante a qual D. Rui Valério lembrou algumas afirmações paradoxais de Cristo.

Jesus recusa toda a paz construída à margem da verdade. Existe uma falsa paz: A paz da acomodação, da indiferença moral, da resignação ao mal. A paz do silêncio perante a injustiça, que resulta da renúncia à verdade. Essa paz não interessa ao Evangelho”, indicou.

D. Rui Valério salientou que “sem verdade, a liberdade converte-se em arbítrio”, “sem verdade, a convivência humana torna-se vulnerável à manipulação do poder”.

Na reflexão, o patriarca de Lisboa evocou exemplos dramáticos desta realidade, com referências à história.

“Os totalitarismos do século XX mostraram como a liberdade desligada da verdade pode transformar-se em instrumento de opressão. A inscrição colocada à entrada de Auschwitz, ‘O trabalho vos tornará livres’ (Arbeit macht frei) é uma profanação da expressão do Evangelho: ‘A verdade vos tornará livres’”, recordou.

O responsável católico alertou que “esta perversão, que é muito clara no âmbito do nazismo, continua a desenvolver-se no coração de tantas pessoas que abandonam a contemplação da transcendência e acreditam encontrar no trabalho, no lucro e na afirmação pessoal, quer seja pela carreira, quer seja pelo poder, a sua libertação”.

“Desenvolve-se, a par disso, um coração que se afasta de Deus, afasta-se dos valores mais profundos que elevam a pessoa, afasta-se, em suma, da verdadeira paz, tendo como corolário de tudo isto a situação atual: guerras em tantas partes do mundo, uma ‘Terceira Guerra mundial aos pedaços’, como dizia o Papa Francisco”, complementou.

A intervenção ficou também marcada por D. Rui Valério apresentar Cristo como realização escatológica da paz, lembrando que o pecado introduziu divisão entre Deus e o homem, entre a humanidade e a criação.

“A obra da redenção consiste precisamente na superação destas ruturas”, realçou.

O patriarca de Lisboa sublinhou que “a Cruz é o lugar onde essa reconciliação se realiza” e que por isso a “paz cristã não pode ser compreendida” sem ela.

A paz não nasce da eliminação do sofrimento. Nasce da transformação do sofrimento pelo amor. A paz alcança a sua expressão plena na pessoa de Jesus Cristo. Não é apenas alguém que anuncia a paz; Ele próprio é a Paz tornada visível na história”, evidenciou.

Promovida pelas Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, a iniciativa assinalou o 44.º aniversário da Páscoa da Serva de Deus Irmã Maria de São João Evangelista (Alzira da Conceição Sobrinho), figura marcante da espiritualidade eucarística da congregação, cuja vida foi profundamente marcada pela devoção a Jesus-Hóstia e pela procura da paz interior.

Foto: Patriarcado de Lisboa

Na reflexão, D. Rui Valério afirmou ainda que a “paz ocupa um lugar estrutural na própria arquitetura da celebração eucarística”, ressaltando que “toda a dinâmica da Missa é uma pedagogia de reconciliação”.

“Tudo converge para a comunhão. A Eucaristia conduz progressivamente os fiéis da dispersão para a unidade, da divisão para a reconciliação, da distância para a comunhão. Nela, a paz não surge como um elemento acessório da celebração, mas como uma dimensão constitutiva do próprio mistério celebrado”, realçou.

O patriarca de Lisboa evidenciou que, num mundo marcado por conflitos, guerras, polarizações e fraturas cada vez mais profundas, o rito da paz “assume uma importância que ultrapassa largamente a sua dimensão ritual”.

Segundo o responsável, este ato “não pode reduzir-se a um gesto convencional de cortesia nem a uma manifestação superficial de simpatia”.

A Eucaristia não é apenas sinal da paz; é também fonte e fermento da paz. Em cada celebração recebemos Aquele que é a nossa Paz e somos enviados para levar essa paz ao mundo”, expressou.

Na conclusão da intervenção, o patriarca apontou aquele que considera ser o “maior serviço que a Igreja pode prestar à humanidade contemporânea”.

“Recordar que a verdadeira paz não nasce apenas dos acordos humanos, mas da reconciliação do homem com Deus; não nasce apenas da ausência de guerra, mas da presença de Cristo; não nasce apenas das estruturas, mas dos corações transformados pela graça”, sublinhou.

“Porque, em última análise, a paz não é uma ideia. A paz é uma Pessoa. E essa Pessoa continua hoje a dizer à sua Igreja e ao mundo: ‘A paz esteja convosco’”, concluiu.

O encontro iniciou-se às 09h30 com o acolhimento e um momento de oração, incluiu um painel de reflexão, durante a tarde, e concluiu com a celebração da Eucaristia, às 16h00, na Catedral.

“Eucaristia, Fonte da Paz” deu mote à iniciativa.

LJ/OC

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