Diretora-executiva da Cáritas de Lisboa avisa também que a dignidade humana está em causa, perante atuais dificuldades económicas

Lisboa, 29 mar 2026 (Ecclesia) – A responsável nacional pela Pastoral da Deficiência defendeu hoje a urgência de dar um maior protagonismo a estas pessoas na Igreja, apelando ao fim de uma visão puramente médica e assistencialista.
“Nós não estamos habituados a dar protagonismo a pessoas com deficiência, não estamos, e muitas vezes até fazemos a injustiça de tomar umas deficiências pelas outras”, disse Carmo Diniz, em entrevista conjunta à Agência ECCLESIA e à Renascença, a respeito da proposta sinodal de criação de um Observatório Eclesial sobre a Deficiência, sublinhando que as comunidades católicas ainda refletem os preconceitos e as barreiras da sociedade civil.
“Quantas e quantas vezes nós tomamos atitudes de não confiar ou de não querer ou não entregar plenamente um assunto ou uma responsabilidade a uma pessoa com deficiência, porque achamos que ela não é capaz?”, questionou.
Para contrariar esta exclusão histórica, o novo Observatório propõe uma liderança partilhada e um poder de decisão autónomo, onde nenhuma deliberação substantiva seja tomada sem a aprovação da maioria das pessoas com deficiência, garantindo o aproveitamento das suas reais capacidades.
Na Igreja também não estamos habituados a ter pessoas com deficiência em posições de liderança e temos pessoas com deficiências extraordinárias, com capacidades muito acima da média e que podem contribuir para este tema.”
A também diretora-executiva da Cáritas Diocesana de Lisboa analisa os desafios da atual conjuntura socioeconómica, marcada pela chegada de muitos cidadãos estrangeiros, assumindo que o país tem o dever de acolher de forma justa quem foge de contextos de fragilidade.
“Uma pessoa vir de uma situação de guerra, ou vir de uma situação mais frágil para Portugal e não ter apoio cá também é indigno e injusto”, sustenta.
Embora reconheça o esforço governamental na regularização de processos, a responsável adverte que existem ainda imigrantes perdidos na burocracia, que recebem notificações de abandono sem alternativas viáveis de organização, recordando o contributo indispensável destas populações para o país.
“As pessoas estão cá e são úteis, nós vimos os estudos recentes que têm sido publicados, os migrantes em Portugal desempenham um papel importantíssimo, nós precisamos das pessoas cá e temos de as tratar bem, temos de dar-lhes as condições para que nos possam ajudar a crescer como sociedade”, indicou Carmo Diniz.
Na intervenção social diária da Cáritas, o emprego e o teto assumem-se como os pilares básicos para travar os ciclos de pobreza, evitando que as famílias que vivem no limite da precariedade percam as suas referências.
“A maior fatia do apoio é em garantir que a pessoa mantenha a sua casa, a habitação é o tema que nós tratamos mais, por isso estamos a fazer esforços acrescidos”, observa.
Carmo Diniz constata que o agravamento do custo de vida empurra muitas pessoas para escolhas dramáticas, onde são forçadas a optar entre pagar a renda da casa, manter os filhos na escola ou comprar a medicação de que necessitam.
“Quando começo a fazer estas escolhas, a dignidade está em jogo”, sublinha.
A terminar a entrevista, no início da Semana Santa, a entrevistada deixa uma mensagem de esperança focada no “princípio da dignidade infinita” para todos os que enfrentam maiores vulnerabilidades.
“Eu gostava muito que nós, sobretudo com a alegria da Páscoa que está quase a chegar, nos lembrássemos disso e que pudéssemos corresponder a esse amor de Deus por nós, independentemente da condição em que me encontro”, conclui.
Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
