Nas vésperas da memória litúrgica do Santo de Assis, animadora do grupo de jovens da igreja de Santa Clara, no Vale de Chelas, e frei Tibério Zílio abordam legado do criador do Cântico das Criaturas
Lisboa, 02 de out 2026 (Ecclesia) – Ana Filipa Nogueira, animadora do grupo de jovens da igreja de Santa Clara, no Vale de Chelas, no Patriarcado de Lisboa, considera que São Francisco de Assis é um exemplo para os jovens numa era marcada pelo acesso fácil e imediato a tudo o que se deseja.
“Eu acho que, ainda mais nos dias de hoje, é uma figura super importante, porque hoje em dia os jovens têm tudo, ou seja, é o imediatismo, está tudo em todo o lado e não têm dificuldades para conseguir as coisas”, afirmou, em entrevista ao programa ECCLESIA, transmitido esta sexta-feira na RTP2.
“Portanto, São Francisco faz-nos recordar aqui um bocadinho que se calhar é preciso sairmos deste imediatismo, olhar para o que está à nossa volta, olhar para o outro e ter esse cuidado também com o outro”, acrescentou.
Na aproximação da memória litúrgica do santo de Assis, que se celebra a 4 de outubro, Ana Filipa Nogueira evocou o criador do Cântico das Criaturas como uma personalidade que “transmite paz” e que motiva a rejeitar a ganância.
“São Francisco sempre demonstrou uma grande simplicidade nas coisas e a proximidade com o outro, o cuidado com o outro. Portanto, eu acho que também é isso muito que vivemos na nossa comunidade”, disse também.
Natural de Itália, o frei Tibério Zílio é pároco de Vale de Chelas (São Maximiliano Kolbe) e de Santa Beatriz da Silva e destaca que São Francisco revela uma “completa liberdade interior” quando trata a morte por irmã, no Cântico das Criaturas, um poema referência na literatura italiana e da espiritualidade cristã.
“Realmente fez toda uma caminhada de conversão, de encontro e de seguimento de Jesus que mostra um despojamento interior, de maneira que realmente […], enquanto estava para ir ao lugar onde desejava morrer, pediu aos freis que o posassem na terra”, lembrou.
O frade conventual, da Ordem dos Frades Menores Conventuais, realça que o santo de Assis é reconhecido por todos como um “homem muito atual”, em vários aspetos e não apenas pela ecologia.

“Há vários eventos que para mim, penso para nós franciscanos, são altamente simbólicos, porque Francisco fala muito profundamente” e “cumpre gestos que encarna, mostra que, não por exibicionismo, encarna o Evangelho”, referiu.
O sacerdote considera que esta é a urgência para os dias de hoje, defendendo que é preciso “recuperar o fundamental” e citando o momento em que São Francisco entrega toda a sua roupa ao pai, num gesto de “despojamento”.
Questionado sobre como os franciscanos conventuais trazem até ao dia de hoje o carisma do fundador, o frei Tibério Zílio responde com a formação intelectual, espiritual e teológica, dirigida também a leigos.
“Mas, principalmente, estar perto, ser a presença de Jesus, com o estilo de São Francisco, principalmente onde há novas formas também de pobreza, estar sempre lá”, indicou.
“Oferecemos também lugares de retiro, temos exercícios espirituais, aliás, a nossa província religiosa tentou, à imitação dos jesuítas, que têm os exercícios espirituais inacianos, criar os exercícios espirituais franciscanos também lá, percorrendo a conversão, o caminho da conversão de Francisco, que tem uma pequena diversidade”, complementou.
Na igreja de Santa Clara, no Vale de Chelas, Ana Filipa expressa que os frades franciscanos são “muito presentes” e que participam com os jovens nos retiros: “Se tivermos alguma questão, podemos também ir ao convento, bater à porta, que somos super bem recebidos”.
“Tanto aqui em Lisboa, como também em Assis, porque também temos esta oportunidade de ir a Assis, fazer os meetings com outros jovens de outras nacionalidades. Portanto, acho que esta diversidade e esta interculturalidade é muito rica para nós também”, observou.
No final da entrevista, o frei Tibério Zílio recordou São Francisco como “um homem profundamente reconciliado, não apenas com Deus, mas também consigo próprio e com os outros”.
“Ele demorou muito a perdoar-se a si mesmo. Foi em Poggio Bustone, um dos lugares dos santuários da Vale Reatina, perto de Roma, entre Roma e Assis, que ele experimentou profundamente esta reconciliação consigo, perdoar-se os seus erros, os seus pecados”, evidenciou.
“E acho que é profundamente atual isto, porque muitas vezes não perdoamos as ofensas dos outros, mas pior ainda, não nos perdoamos a nós próprios, os nossos erros. E passamos toda a vida com este peso na consciência”, declarou.
O Papa Leão XIV convocou um Ano Jubilar especial dedicado a São Francisco de Assis, a decorrer até 10 de janeiro de 2027, com possibilidade de indulgência plenária, por ocasião dos 800 anos da morte do santo italiano.
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