Mensagem do Papa inspira propostas de «jejum de palavras»

Lisboa, 17 fev 2026 (Ecclesia) – A Igreja Católica inicia esta quarta-feira o tempo da Quaresma com um apelo à conversão das relações e da linguagem, unindo a proposta espiritual do Papa à urgência de reconstrução material e social em Portugal, após as tempestades.
Na sua mensagem para a Quaresma de 2026, Leão XIV desafia os fiéis a um “jejum de palavras ofensivas”, argumentando que a verdadeira penitência passa por “desarmar a linguagem” para permitir uma “escuta mais profunda do clamor dos oprimidos”.
O Papa insiste que a Quaresma não é um caminho solitário, mas um tempo de “justiça e reconciliação”.
Em Portugal, esta visão foi partilhada por D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal, que na sua mensagem exorta à “abstinência de palavras que atingem e ferem”, bem como por D. Pedro Fernandes, que apelou a um “jejum de palavras”, dirigindo-se à Diocese de Portalegre-Castelo Branco.
As mensagens dos bispos portugueses sublinham que a dimensão espiritual do jejum e da esmola devem levar a gestos concretos de solidariedade para com os milhares de afetados pelas intempéries.
Várias dioceses decidiram canalizar a totalidade ou parte da sua renúncia quaresmal para o apoio às populações afetadas pelas cheias e ventos fortes das últimas semanas.
Coimbra, Funchal, Portalegre-Castelo Branco, Porto, Setúbal, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu já anunciaram que as verbas recolhidas serão entregues às respetivas Cáritas ou a fundos específicos para a reconstrução de casas e apoio a famílias que perderam bens essenciais.
Para além da crise interna, a solidariedade cruza fronteiras: Santarém e Aveiro destinam parte das verbas para os cristãos do Sudão, e a Diocese do Porto inclui projetos missionários em Angola e Moçambique nas suas intenções de partilha.
A coincidência do início da Quaresma com a proximidade do Dia Mundial da Justiça Social (20 de fevereiro) reforça a tónica dada pelas dioceses à “nova humanidade”.
O bispo de Viana do Castelo propõe que a Quaresma seja o momento para edificar estruturas mais justas, enquanto a diocese da Guarda foca o seu itinerário no “semear esperança” num tempo de incerteza.
No Porto, a pedagogia dos “cinco sentidos” proposta para a caminhada diocesana visa precisamente a “encarnação” da fé, impedindo que a Quaresma seja um exercício abstrato; na Arquidiocese de Braga o convite é para “cuidar da sementeira” com os olhos postos no “jardim pascal”.
Em Aveiro, a caminhada propõe a “transformação das cinzas à ressurreição”.
Nos Açores, o bispo de Angra partilhou 14 intenções de oração específicas para os romeiros que percorrem a ilha de São Miguel, ligando a tradição secular às preocupações contemporâneas.
A renúncia quaresmal é um gesto associado às práticas tradicionais da esmola e do jejum, no qual os fiéis abdicam da compra de bens ou serviços habituais, reservando esse dinheiro para finalidades solidárias específicas, indicadas pelo bispo da diocese, durante o tempo de preparação para a Páscoa.
OC
Quaresma: Papa propõe «jejum» de palavras ofensivas e maior escuta do «clamor dos oprimidos»
