Igreja/Portugal: Mudanças na lei criaram «desconfiança» entre imigrantes, alerta responsável de projeto de acolhimento na Diocese de Coimbra

Dia Mundial do Migrante e do Refugiado 2026 centra-se nos «traumas» dos menores que deixam a sua terra, num alerta lançado por Leão XIV

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Coimbra, 27 set 2026 (Ecclesia) – A coordenadora do projeto ‘Sem Diferenças’, que apoia uma comunidade de cerca de 1300 imigrantes na Marinha das Ondas (Diocese de Coimbra), alertou que as recentes alterações à lei da imigração em Portugal estão a gerar desconfiança e a dificultar a reunificação familiar.

“Enquanto antes [as famílias] se sentiam muito acolhidas e Portugal era realmente facilitador, neste momento já não veem as coisas dessa forma, já acham que há demasiados entraves, demasiadas dificuldades para conseguir a reunificação familiar”, afirmou Cátia Sousa, em entrevista conjunta à Agência ECCLESIA e Renascença, a propósito do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado que a Igreja Católica celebra hoje.

A responsável da instituição, integrada no Centro Nossa Senhora da Boa Viagem, assinalou que as alterações legais – como o fim da manifestação de interesses e a obrigatoriedade de vistos prévios, aliadas aos constrangimentos na AIMA – estão a ter impacto psicológico direto nos imigrantes.

“Nós notamos que nos adultos, muitas vezes, em coisas simples que nós fazíamos, hoje já há uma certa desconfiança. Hoje, por cada papel assinado já há uma interrogação: «Será que estou a fazer bem, será que estou a fazer mal?»”, exemplificou.

O projeto ‘Sem Diferenças’ trabalha diariamente no terreno para construir “pontes” entre a comunidade migrante e a população autóctone, privilegiando a ação junto das crianças nas escolas e em atividades de tempos livres.

A intervenção foca-se também nos “traumas invisíveis” provocados pela separação prolongada entre pais e filhos, uma realidade central na mensagem do Papa Leão XIV para a efeméride deste ano, intitulada ‘Mesmo uma só destas crianças’.

“As crianças quando chegam vêm muito felizes, mas depois os pais já não são só aqueles pais que estão à distância, são os pais que vão estar presentes na hora de disciplinar”, diagnosticou a responsável, explicando que o longo período de afastamento “cria algumas barreiras na relação” e exige um esforço de readaptação familiar.

Questionada sobre a recetividade da sociedade portuguesa, a coordenadora reconheceu um endurecimento do clima social.

“Notamos que de há uns tempos para cá há mais resistência à relação com estas comunidades. Ao início, achávamos que as pessoas viam a chegada destes migrantes com muita satisfação, hoje já ouvimos alguns discursos estereotipados”, testemunhou Cátia Sousa, sublinhando que a instituição procura combater o preconceito promovendo encontros culturais periódicos.

No plano da integração, a responsável apontou a escola como um elemento “bastante impactante” na vida das crianças recém-chegadas e elogiou a organização do Agrupamento de Escolas do Paião, sublinhando que o sistema local “está muito bem estruturado”, contando com o apoio de mediadores culturais.

Questionada sobre a mensagem que deixaria aos decisores políticos, a responsável defendeu que a regulamentação é importante, mas avisou para os perigos da radicalização, apelando a que as políticas públicas foquem a ação no acesso primordial “à família, à casa, à educação e à saúde”.

“Tudo quanto vai para o radical acaba por também não permitir a justiça social”, concluiu a entrevistada.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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