Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social destaca que «a pobreza não é mero conceito sociológico», mas tem rostos concretos que devem «inquietar» a sociedade

Lisboa, 24 mai 2026 (Ecclesia) – O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social apelou ao fim da linguagem de guerra no debate sobre a legislação laboral, alertando para o agravamento da pobreza infantil e das assimetrias salariais.
“Aquilo que eu diria é: não à linguagem das trincheiras, de um lado e de outro. Nesta negociação todos são relevantes. É relevante o ponto de vista do governo, mas também o ponto de vista dos sindicatos”, disse D. Roberto Mariz, convidado da entrevista conjunta ECCLESIA/Renascença, emitida e publicada hoje.
O bispo auxiliar do Porto entende que a lei laboral assume um caráter “estruturante” para a vida em sociedade e para a economia, justificando a urgência de um acordo institucional alicerçado no diálogo.
O responsável falou do impacto do nível salarial em Portuga, “baixo” para a média europeia e para “o custo de vida”, considerando que este é um “indicador fortíssimo” do nível de pobreza, face o impacto contínuo da inflação e dos custos da habitação.
D. Roberto Mariz assume que o panorama socioeconómico português suscita “inquietação” na Igreja Católica, com particular incidência na incapacidade de resposta estrutural perante a existência de “fome” entre crianças carenciadas.
“É algo que nos tem de inquietar. A pobreza não é mero conceito sociológico, muitas vezes a Doutrina Social da Igreja fala disto”, aponta.
O entrevistado apela a um reforço no financiamento estatal das instituições de solidariedade.
“Preocupam-nos as [IPSS] que estão em dificuldade, perceber como conseguir o enquadramento para que elas possam viver e viver sem estar com a corda ao pescoço”, afirma.
Questionado sobre discursos xenófobos, o bispo auxiliar do Porto condenou o aproveitamento de falsos dados para gerar “medo” face aos fluxos migratórios, sustentando a necessidade de combater ideias populistas que desrespeitam a dignidade humana.
“Cada ser humano é um irmão e companheiro, tem de ser olhado desse modo, e a lei deve protegê-lo enquanto tal”, sublinhou D. Roberto Mariz, apelando a um combate global contra as redes de exploração e de tráfico de pessoas.
A entrevista dominical aborda ainda a publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, agendada para esta segunda-feira, com alertas sobre a manipulação da verdade e da identidade através de ferramentas de inteligência artificial.
“É uma matéria que nos obriga a olhar com uma racionalidade atenta e ética profundas”, sustenta o responsável católico.
Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
