Assinalou-se este sábado o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência e esse é o mote para a conversa com Carmo Diniz, recentemente nomeada pela Conferência Episcopal Portuguesa como diretora do Serviço de Pastoral da Pessoas com Deficiência. É também responsável por esta área no Patriarcado de Lisboa e lidera o Gabinete de Diálogo e Proximidade do Comité Organizador Local (COL) da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023

Foto: Miguel Rato/RR

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Como é que a temática da inclusão está a ser trabalhada nesta preparação para a JMJ, que vai trazer milhares de jovens a Lisboa no próximo ano?

Tomou-se muito cedo uma opção – que, do meu ponto de vista, é tanto arriscada quanto correta – que é: não se prepara o acolhimento a pessoas com deficiência como se fosse um grupo em separado, mas tenta-se que toda a organização tenha em conta as pessoas com deficiência nos seus trabalhos.

Foi criado o Gabinete de Diálogo Proximidade, que não é mais do que um gabinete de aconselhamento às direções e que acompanha os trabalhos de cada uma delas, lembrando sempre as necessidades específicas das pessoas com deficiência, nas mais diversas áreas.

 

Esta preocupação está também visível na recente campanha de apelo à inscrição, em que uma das fotos é da Leonor, que é uma jovem com a síndrome de Trissomia 21. Esta mensagem de que a jornada é para todos e que todos serão acolhidos está a passar? Já há ecos disso?

Eu tenho a convicção que sim. Às vezes, quando estamos dentro parece mais do que é…

 

Mas, estando dentro, há a vantagem de saber se as pessoas que são destinatárias dessa mensagem a acolheram bem e se estão contentes com isso…

Sim, foi muito bem acolhida, quanto a isso não há dúvida nenhuma. Se todas as pessoas de fora e que não conhecem ainda a JMJ se aperceberam desta vontade de acolhimento? Eu desejo que sim, não posso garantir, mas temos feito todos os esforços.

A Leonor Belo tem sido extraordinária, como um porta-voz e embaixadora, mas temos mais: o Sebastião Palha, a Carmo Munõz, temos vários jovens que nos estão a ajudar a passar a mensagem. E penso que o próprio COL – porque há uma sensibilização interna a fazer – também está muito consciente e motivado para o acolhimento.

 

Em termos práticos, como é que as coisas estão a ser organizadas para esta vir a ser uma Jornada Mundial da Juventude Inclusiva?

O gabinete acompanha os trabalhos das direções, e tem o foco em seis eixos principais: o primeiro é que as pessoas com deficiência se sintam acolhidas, verdadeiramente acolhidas, e em todos os momentos; o segundo é a participação, que possam participar desde o início do planeamento como voluntários, peregrinos, como entenderem, e se for o seu desejo; a terceira preocupação tem a ver com a comunicação para todos, temos que ter mecanismos alternativos, como a linguagem gestual, o braille e a audiodescrição, para garantir que falamos com todos.

Em termos mais logísticos, a preocupação com a mobilidade, como é que as pessoas chegam aos sítios; a acessibilidade, como é que as pessoas entram nos sítios ou acedem à informação; e depois o alojamento, que as pessoas tenham todas as condições de alojamento que necessitam para ficar uma semana em Lisboa.

 

Essa preocupação já está a ser tida em conta na construção das estruturas onde vai decorrer a JMJ?

Sim, desde o início que trabalhamos com a logística, com uma consciência de que os espaços têm de ser acessíveis, temos de garantir a acessibilidade. Estamos a falar de espaços muito grandes, para grandes eventos. Não significa que todo o espaço será acessível, mas que será acessível a toda a gente.

 

Foto: Miguel Rato/RR

A Jornada Mundial da Juventude pode ajudar a quebrar barreiras em relação às pessoas com deficiência, e vir a marcar a diferença em relação a edições anteriores?

Um dos pilares da organização da JMJ é que deixe um legado, e também no tema das pessoas com deficiência é um grande desejo que esse legado fique na consciência de todos nós, da necessidade da acessibilidade e de inclusão das pessoas na Igreja. Que fique agora para a Jornada e que seja mais um degrau que subimos no tema da inclusão.

 

Para que seja uma jornada com pessoas com deficiência, também teremos voluntários e pessoas a dar a cara no trabalho da JMJ?

Espero que sim. Dentro da Direção de Acolhimento e Voluntariado existe um grupo de trabalho para acolher os voluntários com deficiência que se inscrevem, para os alocar às funções adequadas às suas capacidades.

 

A questão da sustentabilidade e do combate ao desperdício é também uma preocupação da JMJ. É fundamental que se passe também esta mensagem na Jornada?

É importantíssimo! Um jovem em 2023 já não tolera desperdício, não tolera resíduos. É um jovem mais exigente, e ainda bem.

Trabalhamos com uma estratégia de sustentabilidade e com parceiros externos para garantir que o tema da sustentabilidade é acautelado, que cuidamos da nossa Casa Comum e que a deixamos melhor do que a encontrámos.

 

Há consciência de que vai haver um olhar particularmente crítico, especificamente sobre estes temas? Que se a JMJ e os seus eventos deixarem atrás de si um rasto de lixo, por exemplo, a sociedade vai ser mais crítica do que seria para outros grandes eventos?

Vai ser muito mais crítica. Temos os relatos das Jornadas anteriores, que já foram críticos e houve cuidado. Porque não é a primeira vez que se está a ter cuidado com a sustentabilidade das jornadas, mas penso que em 2023 a exigência é bastante maior, sobretudo com as encíclicas do Papa, nomeadamente a ‘Laudato Si’. O Papa já disse de todas as formas que temos mesmo de cuidar da nossa Casa Comum. E agora, com o reforço do documentário do Papa ‘A Carta’ (inspirado na ‘Laudato Si’) é muito claro que não podemos deixar passar uma Jornada Mundial da Juventude sem levantar esses temas, sem os tratar, sem tentar deixar também um legado.

 

Como dissemos no início, foi recentemente nomeada pela Conferência Episcopal Portuguesa como nova diretora do Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência. Já definiu prioridades?

Sim. A primeira prioridade é a Jornada Mundial da Juventude, não há dúvida nenhuma.

 

Então começamos pela prioridade?

Sim, começamos pelo princípio. Até agosto, vai ser uma dedicação total e completa à JMJ, penso que com muitos frutos para o Serviço Nacional e também para os serviços diocesanos, acho que vai haver muitos frutos ao nível da pastoral, das acessibilidades, da mobilidade, da participação, da comunicação para todos, no fundo nas preocupações que referi anteriormente. Vai haver aqui um legado muito bom para a Pastoral da Deficiência a nível nacional e diocesano.

 

Foto: Miguel Rato/RR

Este Serviço Pastoral existe desde 2010. Nestes 12 anos, quanto é que se evoluiu – se é que se pode quantificar estas coisas – em termos, por exemplo, de acolhimento nas comunidades?

Não sei se conseguimos quantificar. Sei que acompanhei uma parte do caminho, mais recente, junto da Isabel Vale e da Alice Cabral, que fizeram um trabalho longo e duro numa época em que era mais difícil falar sobre inclusão. Porque hoje em dia é mais fácil falar sobre inclusão do que era em 2010 ou 2015.

O trabalho que foi feito foi de criação de alguns serviços diocesanos, que continuam a trabalhar consistentemente, e de sensibilização da Igreja em geral. É um trabalho que tem de ser continuado. Quantificar, é mais complicado, ainda não nos dedicámos a isso…

 

Iniciativas promovidas no Patriarcado de Lisboa, como o guia ‘Uma Igreja para Todos’, os projetos ‘Rampas para Jesus’ ou ‘Vigararia Acessível’, podem vir a ser replicados a nível nacional?

Penso que sim. São projetos com sucesso, dependem da dinamização dos serviços diocesanos, mas podem ser muito úteis.

No decorrer da JMJ é provável e desejável que alguns destes projetos ganhem uma dimensão maior. Os espaços da Jornada Mundial da Juventude saberem se são acessíveis, ou não, só essa informação é muito útil para os peregrinos que querem vir, e deixa um legado para as pessoas com deficiência que vão continuar a utilizar esses espaços, sejam eles igrejas, centros sociais e paroquiais, ou quaisquer outros.

Tenho o desejo pessoal, e penso que a equipa (do Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência) que se formar – ainda não está nomeada -, mas que se irá formar, também acompanhará este desejo. Porque são projetos que foram iniciados há algum tempo e precisam de crescer, ganhar outra dimensão e robustez, e o Serviço Nacional vai poder dar-lhes essa dimensão.

 

Olhando para a realidade nacional, quando conversamos sobre esta temática, dizia-nos que Portugal tem “ótimas leis de acessibilidade”, faltava era serem cumpridas… É uma preocupação que mantém?

É uma preocupação. Acredito que o Serviço não tem essa função de fiscalizar a implementação da lei, mas tem o dever de promover, para que a lei seja cumprida.

 

E às vezes falta a consciência…

Com consciência, sim, com o trabalho de todos, podemos contribuir para isso.

 

Foto: Miguel Rato/RR

A inclusão das pessoas com deficiência é uma temática a que o Papa Francisco se refere muitas vezes, lembrando que a Igreja é “a casa de todos”, alertando, por exemplo, para o direito que estas pessoas têm de receber os Sacramentos. Na Igreja em Portugal esta é uma questão pacífica? Tem havido evolução?

Tem-se evoluído e penso que se tem de evoluir bastante mais. Não podemos dizer que qualquer pessoa com deficiência, na Igreja em Portugal, aceda aos sacramentos com tranquilidade. Isso não é verdade, temos de trabalhar no assunto.

O Dicastério para os Leigos, Família e Vida, a propósito dos trabalhos do Sínodo, juntou pessoas com deficiência, de todo o mundo, para falar e perguntar o que falta à Igreja, para ser mais inclusiva. Um dos temas que me chamou a atenção, na leitura do documento ‘A Igreja é a nossa casa’, foi a falta de pensamento teológico sobre o assunto, sobre a inclusão. Temos de trilhar esse caminho, também. Não basta dizer que a inclusão é necessária e vamos incluir. Há muitos temas a refletir, muitos subtemas sobre o grande tema da inclusão, há trabalho que precisa de ser feito na academia, também, para que a Igreja tenha os pés assentes na rocha da inclusão.

 

O Dicastério para os Leigos, Família e Vida convidou, em maio, cerca de 30 pessoas com deficiência, de vários continentes, a participarem no caminho sinodal. Esses contributos foram recolhidos numa síntese entregue à Secretaria-Geral do Sínodo e ao Papa Francisco. A partir de 6 de dezembro vão fazer parte de uma campanha multimédia do Vaticano. Esta vontade explícita de envolver as pessoas com deficiência, muitas vezes invisibilizadas nas comunidades, no processo sinodal, é um sinal importante para o resto da Igreja?

É um sinal muito importante para o resto da Igreja, é um sinal muito importante para o mundo, no sentido de dar dignidade a todos. Na Europa, se calhar, estamos mais pacificados e compreendemos melhor o que é a dignidade de todas as pessoas, mas infelizmente isso não acontece no mundo inteiro, há sítios e regiões onde as pessoas com deficiência não têm a mesma dignidade. É uma luta muito importante.

 

No documento divulgado pelo Vaticano fala-se na necessidade de uma “mudança de paradigma”, de acabar com atitudes paternalistas em relação aos deficientes, ou de os considerar “objetos” e não um sujeito da sua pastoral. Revê-se no diagnóstico feito neste documento? A situação em Portugal, na Europa, está um passo à frente?

O modelo assistencialista ainda existe, no nosso dia a dia: quando fazemos as coisas pelos outros, quando nos esquecemos de perguntar o que a outra pessoa quer, quando decidimos por ela. Não temos ainda um modelo participativo, total, existe em medidas diferentes, nas várias geografias, mas em Portugal, claramente, continuamos a dizer que as pessoas com estas características fazem isto, as pessoas com outras características fazem aquilo e não fazem mais nada. Esquecemo-nos de lhes perguntar o que querem fazer, o que gostam de fazer, o que se sentem capacitadas para fazer. É uma mudança de paradigma muito complicada, que limita muito a vida das pessoas com deficiência, infelizmente.

 

As pessoas com deficiência são das mais vulneráveis, também à pobreza. O Papa tem alertado para a cultura do descarte a que muitas vezes são sujeitas. É necessária mais sensibilidade para a inclusão destas pessoas?

É preciso sensibilizar muito para o que as pessoas com deficiência têm para ensinar e trazer ao mundo, de alegria, de sabedoria, de profundidade, de simplicidade, são muitas as mensagens e os valores. A cultura do descarte, que às vezes vemos com a opção pelo aborto quando se tem consciência da deficiência de uma criança, é uma tristeza para a nossa sociedade, uma pobreza, pensar que essas pessoas podem ser descartadas. Quando não olhamos para as pessoas com deficiência para perceber as suas dificuldades e ajudamos, não no sentido assistencialista, mas dando as condições de que precisam para participar, estamos também a descartá-las. É importante garantir que a pessoa com deficiência tem as condições para se expressar plenamente e não ser descartada, nem como ser humano, através da opção da interrupção da gravidez, quer através da expressão da sua vontade, das suas capacidades, dos seus dons.

 

Foto: Miguel Rato/RR

A Carmo tem um filho deficiente profundo, conhece bem as dificuldades que existem a este nível. Que mensagem deixa para as famílias que estão em circunstâncias idênticas e para as que podem vir a estar?

Eu tenho uma vivência pessoal muito feliz, muito abençoada, com a deficiência e com o nosso filho Bernardo, em casa. Ele traz-nos uma alegria imensa, questões e dificuldades imensas que nos fazem olhar para a vida de outra forma. A mensagem às famílias é que possam, de facto, aproveitar a oportunidade para olhar para a vida de uma nova forma, aprendendo com as pessoas com deficiência.

 

 

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