Igreja/Migrantes: Refeitório Rosália Rendu é «ilha de humanidade» que o moldavo Ivan encontra

Espaço social das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo abriu portas em 2005 e hoje é local onde dar alimentação a quem «precisa ser acompanhado» se torna resposta 

Foto Agência ECCLESIA/LS

Lisboa, 25 set 2026 (Ecclesia) – O refeitório Rosália Rendu, em Lisboa, fornece 45 almoços diários a pessoas que sem esta resposta social das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, não teriam resposta para uma necessidade básica de subsistência.

O moldavo Ivan está em Portugal quase há 30 anos, trabalhou na construção civil como canalizador, descontou para a Segurança Social, recebeu “número de utente para ser acompanhado pelo médico”, mas em 2022 ficou de baixa por motivos de saúde e atualmente, sem receber qualquer apoio está entre a recomendação de não poder trabalhar e a “junta médica da Segurança Social que diz que eu tenho de arranjar trabalho”.

“Se existe lei que eu tenho direito ao subsídio de baixa, se existe lei que eu fiz descontos, existe uma lei que pode matar com fome pessoas? Aquela lei que proíbe tratar mal animais, eu vi. Mas aquela que proíbe tratar mal humanos, pessoas, eu não vi”, desabafa à Agência ECCLESIA.

Três meses depois de não pagar a eletricidade a luz foi cortada, mas o senhorio de Ivan compreende o atraso no pagamento da renda; o refeitório Rosália Rendu é o local onde vai buscar comida, “não muita” porque vive sozinho, e não tem luz para conservar os alimentos.

“Aqui, pessoas não prometem o que não podem fazer. Quando aqui cheguei, ganhei confiança. Por exemplo, ontem eu devia ter vindo buscar comida, porque era o meu dia de recolha, mas não consegui. Só hoje consegui vir, mas não ouvi uma palavra a recriminar – recebi toda a compreensão, simpatia. Só posso agradecer aos voluntários e a todos. Há um oceano grande, e esta é uma pequena ilha de humanidade”, regista Ivan.

A resposta social das Irmãs Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, localizado no Campo Grande, abriu portas em 2005, permitindo que os utentes tivessem uma refeição completa, quente e sentados; durante a pandemia forneceu marmitas e atualmente, num espaço renovado fornece almoços a cerca de “45, às vezes 55 pessoas, que levam também comida para o jantar” e cabazes alimentares a famílias que ali se deslocam.

Foto Agência ECCLESIA/LS

A irmã Alzira Santos dedica a sua vida a este espaço desde 2018, contando com o auxílio de 25 voluntários que ora estão na cozinha, ora recolhem alimentos à noite em rondas entre os parceiros que disponibilizam excedentes alimentares.

“Era preciso um acompanhamento total e constante para as pessoas saírem da pobreza. Não é só com assistentes sociais – tem que mesmo ir ao terreno, tem que mesmo estar com as pessoas, ajudar as pessoas a se organizarem. Vejo famílias destruturadas, em todo sentido – as crianças se comerem come, se forem à escola vão, se não forem não vão”, conta à Agência ECCLESIA.

O auxílio alimentar varia no tempo conforme o caso: “Alguns é temporariamente, dois meses, meio ano; outros não – outros percebemos que ano após ano, não conseguem sair dessa situação. Não terem documentação e o receio de serem apanhados, leva-os a não quererem falar, o que torna o acompanhamento mais difícil”.

A responsável dá conta de fragilidades a vários níveis – “alimentar, vestuário, acolhimento, combate à solidão e compreensão” – mas regista que se há casos que se prolongam no tempo, há também quem regresse ao refeitório para agradecer.

“Acompanhamos uma família vinda de Marrocos com difícil integração, dada a língua, com muitos problemas. Andaram de um lado para o outro, porque as rendas aumentavam muito, conseguimos arranjar trabalho para os dois, com a ajuda dos voluntários. Adotaram dois filhos, e hoje estão muito bem. A trabalhar, as crianças a estudar, um deles já na universidade, e quando me encontram querem vir ajudar no refeitório”, conta a religiosa.

Na sua mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2026, com o título ‘Mesmo uma só destas crianças’, lançada em agosto, o Papa alertava para os crimes que atingem os menores, como o tráfico humano, o recrutamento para conflitos armados e a violência sexual.

A mensagem exige às instituições públicas e privadas uma “mudança de perspetiva”, defendendo que o eixo do debate político passe da “mera gestão dos fluxos” para a “tutela plena e imediata dos direitos humanos”.

Foto: Agência ECCLESIA/PR

O refeitório Rosália Rendu é uma resposta ao desafio ao repto que o Papa lança onde apela à “responsabilidade de todos”.

“Este espaço procura dignificar quem vem aqui comer. Todas as pessoas têm direito a comer de forma digna, não debaixo de uma árvore, não qualquer coisa. Aqui, lavam as mãos, sentam-se, comem sopa, prato, fruta, pão de forma digna”, finaliza a religiosa.

A Igreja católica assinala no dia 27 de setembro o Dia Mundial do Migrante e Refugiado; a reportagem no refeitório Rosália Rendu pode ser acompanhada no programa Ecclesia, emitido sábado na RTP Antena1, pelas 6h.

LS/OC

Igreja/Sociedade: Papa alerta para a vulnerabilidade dos menores migrantes, e apela «à responsabilidade de todos»

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