Debate sobre nova encíclica alertou para perigos de guerra gerida por máquinas

Lisboa, 09 jun 2026 (Ecclesia) –Marcelo Rebelo de Sousa elogiou, em Lisboa, a liderança de Leão XIV no debate sobre a inteligência artificial (IA) e pediu regras globais para este setor.
“Estamos a falar de economias e sociedades muito evoluídas que não estão a ser capazes de acompanhar este desafio”, avisou o antigo presidente da República Portuguesa, na Feira do Livro, após um debate sobre a primeira encíclica do pontificado, ‘Magnifica Humanitas’.
Em declarações aos jornalistas, Rebelo de Sousa elogiou a consistência de Leão XIV por assumir a liderança do tema e avançar “de forma pioneira” num dossiê que tem gerado hesitações na comunidade internacional.
Durante a apresentação do documento, o antigo vice-primeiro-ministro Paulo Portas advertiu que a intervenção da inteligência artificial nas decisões militares decreta o fim da doutrina da “guerra justa”.
O comentador sustentou que a introdução de critérios automatizados nos conflitos armados invalida qualquer justificação ética, uma vez que a escolha dos alvos se torna “completamente não humana no sistema de decisão”.
A reflexão apresentada considerou que a nova realidade tecnológica reduz a legitimidade do uso da força militar em exclusivo a casos de “legítima defesa, em sentido estrito”.
Já o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, focou a sua análise nos riscos de dependência tecnológica e sublinhou a urgência de dotar os cidadãos de formação adequada para enfrentarem o ritmo do “algoritmo”.
“Se nós não tivermos um pensamento crítico, seremos instrumentos das máquinas”, assinalou.
O sociólogo António Barreto, um dos oradores convidados classificou a primeira carta encíclica do atual pontificado como um marco histórico que afasta a Igreja de abordagens meramente conjunturais.
“A inteligência artificial é tratada com o respeito que merece e com a dimensão de perigo que representa, mas é ultrapassada por uma reflexão muito mais séria, mais profunda sobre a ciência, a tecnologia, o poder, a utilização do poder e a paz”, analisou o investigador.
O debate multidisciplinar foi promovido pelo Patriarcado de Lisboa e pela Paulinas Editora, contando com a participação do patriarca D. Rui Valério e a presença do núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso.
A encíclica ‘Magnifica Humanitas’ (a magnífica humanidade), divulgada a 25 de maio pelo Vaticano, convoca a sociedade para o “desarmamento” da Inteligência Artificial perante os cenários de automação militar e manipulação de dados.
O documento de Leão XIV alerta para o agravamento das desigualdades globais geradas pelo “colonialismo” digital, denunciando as novas formas de escravatura que sustentam a transição tecnológica.
O texto pontifício contrapõe as promessas de transcendência do transumanismo ao valor irredutível da dignidade humana, apelando a uma civilização assente no amor e no bem comum.
LS/OC
