Escrito dialogou sobre o luto encontro com D. Nélio Pita, bispo auxiliar de Braga

Guimarães, 05 nov 2026 (Ecclesia) – O escritor Valter Hugo Mãe e D. Nélio Pita, bispo auxiliar de Braga, debateram na quarta-feira, em Guimarães, a vivência do luto, apelando ao acompanhamento comunitário de quem sofre.
“Perder alguém não é regressar ao nada”, afirmou o autor da obra ‘Educação da Tristeza’, durante a conversa realizada na ‘Black Box’ do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), informa hoje a Arquidiocese de Braga.
Partindo da morte da amiga Isabel Lhano e do sobrinho Eduardo, falecido aos 16 anos, o romancista reivindicou o “direito a esta tristeza” e explicou que “as pessoas que morrem, de facto, continuam a ser um património” confiado à memória e aos gestos dos vivos.
“Estar vivo obriga-me à gratidão”, declarou Valter Hugo Mãe, defendendo que é necessário reunir forças para celebrar a existência e que, se a vida tiver um propósito, “é exatamente para que nos suportemos uns aos outros, para que nos defendamos uns aos outros”.
Por sua vez, D. Nélio Pita evocou o episódio bíblico dos discípulos de Emaús para aconselhar o acompanhamento atento das feridas alheias, “sem ter a pressa de apresentar grandes explicações” que podem agravar a dor.
“A fé, de alguma forma, mata a morte”, observou o bispo auxiliar de Braga, ressalvando que a esperança cristã na ressurreição não torna os católicos “imunes ao sofrimento”, como demonstram as lágrimas de Jesus perante Lázaro e o choro de Santo Agostinho pela mãe.
“Como seres humanos, por vezes somos pouco humanos”, acrescentou, ao falar da solidão escondida nas comunidades.
D. Nélio Pita apontou um desequilíbrio entre o cuidado dedicado à liturgia ou à catequese e a prática da ação social, que classificou como “uma pobre caridade”.
“Pode ser a senhora muito rica, mas que não tem ninguém que a acompanhe, que a visite”, exemplificou o responsável católico, frisando que a vulnerabilidade ultrapassa a carência económica.
Questionados pelo público sobre a procura de companhia através da inteligência artificial, D. Nélio Pita alertou para a ilusão de aceitação incondicional criada pelos sistemas de conversação, enquanto Valter Hugo Mãe advertiu contra a substituição do encontro físico pelo virtual, considerando que “a internet não imita a vida, a internet imita a morte”.
Integrada no ciclo ‘O Conquistador’ e na visita pastoral ao Arciprestado de Guimarães e Vizela, a sessão intitulada ‘Educação da Tristeza: Literatura ou Fé?’ esgotou a lotação da sala, deixando cerca de 150 pessoas no exterior.
“É uma iniciativa fora do formato e nós precisamos de iniciativas fora do formato”, concluiu D. Nélio Pita.
OC
