Ruy Ventura, responsável pela comissão organizadora, destaca um poeta que quatro séculos depois «continua a ser lido e apetecido»

Lisboa, 14 mar 2019 (Ecclesia) – Na Diocese de Setúbal começam hoje as comemorações do IV Centenário da morte de Frei Agostinho da Cruz, religioso franciscano que a partir da Serra da Arrábida se afirmou como um dos maiores poetas da língua portuguesa.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o professor Ruy Ventura, comissário destas comemorações, realça que este projeto tem dois grandes objetivos: “dar a ler Frei Agostinho e mostrar até que ponto ele ainda é atual”.

De acordo com aquele responsável, apesar dos séculos que separam a era de Frei Agostinho da Cruz do tempo atual, estão em causa “épocas muito parecidas, muito conturbadas, com grandes problemas políticos, sociais, morais”.

“E é muito curioso que se lermos devidamente a obra de Frei Agostinho apanhamos as vias universais que nos permitem salvarmo-nos ao fim ao cabo nesta época conturbada em que vivemos. É por isso que ele é muito atual e continua a ser lido e apetecido”, considera Ruy Ventura.

O docente e também escritor destaca ainda um homem que foi “contemporâneo de Camões”, mas que construiu um legado para lá “desse limite temporal”, sendo hoje reconhecido como “uma referência nacional”, no campo da literatura e da poesia.

Para Ruy Ventura, o feito de Frei Agostinho da Cruz é ainda mais significativo quando se sabe que a sua obra “só muito tardiamente” é que começou a ser divulgada.

Esta quarta-feira, a partir das 14h30, Ruy Ventura promove uma palestra sobre Frei Agostinho da Cruz, com leitura de poemas, na Escola Básica de Aranguez.

No sábado, as comemorações prosseguem com uma missa de ação de graças na Paróquia da Anunciada, pelas 18h30, presidida pelo bispo de Setúbal, D. José Ornelas.

Ainda no mesmo dia 16 de março, será lançada uma antologia dedicada à obra de Frei Agostinho da Cruz, pelas 21h00, no auditório da Cúria Diocesana em Setúbal.

Nascido a 3 de maio de 1540, em Ponte da Barca, na região de Setúbal, Agostinho Pimenta adotou o nome de Frei Agostinho da Cruz quando entrou para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.

Antes disso, ainda muito novo, esteve ao serviço de um neto do rei D. Manuel, neste caso D. Duarte, e terá vivido durante esse período no Paço do Caldo em Guimarães.

A sua juventude dividiu-a também entre a Ribeira do Tejo e do Mondego, ou seja, entre Lisboa e Coimbra.

“O facto é que aquele ambiente cortesão não é um ambiente que lhe agrade muito e por volta dos 20 anos, em contacto com o frade arrábido, o Frei Jácome Peregrino, ele decide mudar de vida e entrar na mais radical via do franciscanismo, que era o franciscanismo arrábido”, recorda Ruy Ventura.

Frei Agostinho da Cruz toma então hábito no Convento de Santa Cruz de Sintra, para uma vida marcada pela “radicalidade”, mas também por “uma grande independência” dentro da sua Ordem.

Depois de mais de 40 anos no convento de Santa Cruz, na serra de Sintra, Frei Agostinho da Cruz passou a habitar, a partir de 1605, uma cela do Convento da Serra da Arrábida, como eremita.

Num dos poemas que deixou – a primeira antologia dedicada à sua obra só foi publicada em 1771 – Frei Agostinho da Cruz aborda a sua entrada na vida consagrada e a forma como esse acontecimento moldou a sua escrita.

Recorde-se que o religioso nasceu no dia de Santa Cruz, tomou hábito no dia de Santa Cruz e tomou esses dois momentos como uma premonição, tanto que adotou como nome Frei Agostinho da Cruz.

“Ele destrói toda a obra literária que tinha escrito até aí e passa a escrever uma poesia que, sendo muito autobiográfica, tem sempre uma finalidade que é a libertação através da contemplação das chagas de Cristo”, realça Ruy Ventura, para sublinhar que o tema de Jesus é algo que percorre os versos deste autor “constantemente”.

E que é a partir desta linha que nasce a grande temática que carateriza a sua obra, a busca da libertação.

“É o Cristo da Cruz, o Cristo chagado, o Cristo sofredor, mas sobretudo o Cristo que se faz irmão dos homens e do seu sofrimento. E através daí, contemplando as chagas de Cristo e meditando a partir delas, Frei Agostinho da Cruz diz-nos que é uma via de libertação para todos nós, porque deixamos de ligar aos constrangimentos do dia-a-dia e passamos a ter um objetivo maior e mais alto”, completa Ruy Ventura.

As comemorações dedicadas a Frei Agostinho da Cruz, na Diocese de Setúbal, pretendem assinalar os 400 anos da morte e os 480 anos do nascimento deste religioso e poeta português.

Entre março deste ano e maio de 2020 estão previstas diversas outras iniciativas, como “um recital de poesia”, no Convento da Arrábida, a 23 de março, com a leitura de poemas de Frei Agostinho da Cruz e de outros autores que espelharam nos seus versos aquele sacro-monte.

No dia 8 de junho realiza-se um colóquio sobre a vida e obra do poeta, em Sintra, e para 3 de janeiro de 2020, está prevista uma conferência sobre Frei Agostinho da Cruz, que será proferida por D. José Tolentino Mendonça, atual bibliotecário e arquivista da Santa Sé.

JCP

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