Homilia do patriarca de Lisboa na Vigília Pascal

Sé Patriarcal, 4 de abril de 2026

Foto: Duarte de Mourão Nunes/Patriarcado de Lisboa

1. Esta é a noite santa, a noite maior, a noite bendita, em que a Igreja vigia e contempla o agir de Deus. A noite em que a luz rompe as trevas, a vida vence a morte e Cristo, Senhor da história, Se levanta glorioso do sepulcro.
Jesus Ressuscitou: o mundo reencontra sentido, não só para o seu fazer e produzir, mas, fundamentalmente, para o seu ser. Sem a Ressurreição, o viver seria permanecer na dramática condição de «ser para a morte», persistindo no caminho para o abismo da aniquilação. Mas, na vitória sobre a morte, Cristo surge revivificado pelo Pai na plenitude da vida, acolhido já investido da nova condição, no convívio amoroso da Glória eterna. Com Ele, também o mundo – todo o criado – surge reconfigurado na sua estrutura existencial: já não para a sepultura, mas para a pátria eterna; já não numa vida de fechamento e egoísmo, mas aberta à comunhão com todos os irmãos, enxertada na relação salvífica com Deus.

2. Muitas vezes, tratamos a Páscoa como o «final feliz» de uma tragédia. Mas, no estilo de Deus, a Ressurreição é uma interrupção; é o «Inesperado». Cristo não volta à vida para retomar o fio da meada anterior; Ele atravessa a morte para inaugurar uma dimensão onde a ferida permanece — as chagas! —, mas já não dói como desespero. Ele é o «Vivente» que nos convida a uma existência pós-fatalista. Ressuscitar é, antes de tudo, deixar-se surpreender pela capacidade de Deus em escrever num papel que nós próprios amarrotámos ou rasgámos.
O Evangelho mostra-nos o túmulo vazio. Sabemos que o vazio provoca, antropologicamente, o horror e a sede de provas ou monumentos. No entanto, Deus oferece-nos uma ausência que é, na verdade, uma forma extrema de liberdade. «Não está aqui»: esta frase é a nossa libertação. Deus não está retido nos nossos conceitos, nos nossos sistemas de culpa, nem sequer na nossa religiosidade estática. Ele «vai à vossa frente». Ser cristão, nesta noite, é aceitar este nomadismo espiritual; é ser um eterno principiante.

3. Por isso, caros irmãos, a Ressurreição não é um acontecimento passado, mas atual; não pertence só a Jesus, mas, n’Ele, a todos nós. A humanidade alcançou uma nova condição: embora sendo seres criados, possuímos, pela graça de Deus, o chamamento à divinização; e, ainda que pertençamos à história, sustentamo-nos na esperança da vida eterna. Assim, se a nossa participação nesta vigília – que é a mãe de todas as vigílias – nos torna testemunhas de que o Crucificado ressuscitou, ela impele-nos a avisar os irmãos para que partam para a Galileia da vida, pois é lá que O encontrarão. A graça batismal constitui-nos participantes da mesma vida divina que ressuscitou Jesus e manifestou o seu estatuto de Salvador do mundo.

4. Deste modo, a nossa presença na sociedade nunca pode ser neutra, mas sim sustentada na condição de ressuscitados e, como tal, construtores de um mundo iluminado pelo amor. Particularmente nestes tempos de elevada complexidade, em que as notícias de luz são zelosamente ignoradas para que prevaleçam as da morte, da guerra e do homem como obra fracassada, somos chamados a ser, para o Portugal e para o mundo de hoje, sal e luz. Perante quotidianos sombrios, onde o fluir do tempo é ritmado por escândalos e violentas invasões bélicas, a alegria e a esperança fluem da fonte transbordante que transformou aqueles que, em Cristo, morreram para o homem velho e ressuscitaram para o homem novo.
A luz da Ressurreição, de facto, não é uma ideia distante, nem uma consolação abstrata. É uma força real, que espera tocar a história. Espera entrar nas geografias feridas da humanidade. Espera alcançar os campos de guerra, as casas destruídas, as famílias desfeitas, os corações divididos, as consciências endurecidas. E esta luz, caros irmãos, passa por nós. Cada batizado é chamado a ser portador desta luz.
A paz que Cristo nos dá não é a ausência de conflito, mas a vitória do amor sobre o mal. Não nasce fora de nós, mas no coração renovado pela graça. E só um coração ressuscitado pode gerar um mundo reconciliado.

5. Ao renovarmos o nosso Batismo, não assinamos um contrato de certezas, mas aceitamos ser hóspedes de um Mistério que nos ultrapassa. A água e o fogo recordam-nos que somos feitos de terra, mas habitados pelo sopro. Que a vossa vida tenha o sabor do «ainda não» e do «já», do «agora». Não procureis o Vivente entre os mortos. A Páscoa é a permissão divina para começarmos de novo, mesmo quando tudo em nós diz que é tarde demais.
Cristo ressuscitou. A vida já não é um destino fechado, mas uma conversa que nunca acaba. Ámen.

+Rui, Patriarca de Lisboa

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