Homilia do bispo do Ordinariato Castrense na Missa do Domingo de Páscoa

Irmãs e irmãos,

Há uma corrida neste Evangelho que merece ser contemplada com atenção, porque tem muito a dizer-nos hoje.

Pedro e João correm ao sepulcro. João chega primeiro, para à entrada, espreita, vê as ligaduras no chão, mas não entra. Chega Pedro — com o peso de quem negou três vezes o seu Mestre. Ele entra. E depois entra João. E o Evangelista escreve, com uma simplicidade impressionante: «viu e acreditou.»

Não diz que João compreendeu tudo. Diz que viu — as ligaduras no chão, o sudário cuidadosamente dobrado e colocado à parte — e acreditou. A fé pascal nasce de sinais pequenos, lidos com o coração aberto. Nasce de detalhes que uma razão honesta não consegue ignorar: quem rouba um cadáver dobra o sudário com cuidado? Há uma ordem naquela cena que desmente o caos. Há uma liberdade naquela ausência que anuncia uma presença maior.

O primeiro dia de uma criação nova

O Evangelho começa com uma indicação que parece apenas cronológica, mas que João carrega de teologia: «no primeiro dia da semana.» Para quem conhece a Bíblia, esta expressão faz ressoar outra passagem das suas primeiras páginas: «No princípio, Deus criou o céu e a terra… E disse Deus: Haja luz. E houve luz… E foi a tarde e foi a manhã: o primeiro dia.»(Gn. 1, 1-5). O primeiro dia é o dia em que Deus disse: «Haja luz.» Ao dizê-lo, João anuncia que aqui começa algo radicalmente novo — não se trata apenas de um acontecimento no interior da história, mas do início de uma criação nova, de um tempo novo, de um homem novo.

E há também uma indicação de escuridão: Maria Madalena vai ao sepulcro «de manhã cedo, ainda escuro.» A nova criação começa ainda no escuro. É assim que Deus age — não com fanfarra, não com exércitos, não com demonstrações de força que impressionem os poderosos. Age no silêncio, nos sinais discretos que só quem está atento consegue ler.

Também nós vivemos nessa hora que ainda está escura. Olhamos para o mundo e vemos a Ucrânia, o Irão, o Líbano … e tantos outros lugares que os noticiários já não mencionam, mas onde o sofrimento continua real. Vemos uma retórica que endurece, em que a linguagem da força substitui a do direito, onde o medo se transforma em política, onde a mentira se apresenta como verdade. Mas é precisamente nesta hora que a mensagem pascal ressoa com mais força: o primeiro dia já começou.

A grande vitória

Na primeira leitura, Pedro anuncia a Ressurreição diante de Cornélio — um centurião romano, um militar pagão, representante do poder que crucificou Jesus. E não há ressentimento. Não há acusação. Há apenas anúncio: «Nós somos testemunhas. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia.» E a conclusão é radical: «quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados.» Todos. Sem fronteiras. Sem exceções.

A Ressurreição não é uma vitória contra alguém. É uma vitória para todos. E, neste mundo partido e estilhaçado — onde a lógica dos blocos divide e o inimigo precisa de ser desumanizado para que a guerra seja possível — esta mensagem é subversiva. A misericórdia de Deus não obedece a mapas geopolíticos.

Celebramos a Páscoa porque, graças ao Senhor ressuscitado, fica definitivamente estabelecido que a razão é mais forte do que a irracionalidade, a verdade mais forte do que a mentira, o amor mais forte do que a morte. Esta afirmação é um programa de vida. É uma declaração que contraria frontalmente a lógica do mundo.

Porque a lógica do mundo diz que vence quem tem mais força bruta, mais capacidade de destruição, mais habilidade de manipular a narrativa. A Páscoa diz: não! Não definitivamente. A mentira pode enganar multidões — mas a verdade teima em ressurgir. O ódio pode matar — mas não consegue destruir o amor que o gerou. A violência pode vencer batalhas — mas não vence a guerra última. A vitória de Cristo é a vitória do bem sobre o mal, da paz sobre a violência, do amor sobre o ódio, da verdade sobre a mentira. E esta vitória já aconteceu. É o facto mais decisivo da história humana.

Aspirar às coisas do alto

São Paulo convida-nos: «Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto.» Não é uma fuga do mundo. É exatamente o oposto. Significa orientar a vida pelo horizonte último — pelo facto de que a morte não tem a última palavra, que há uma dignidade humana inviolável que nenhum exército nem nenhuma propaganda pode anular. Implica agir neste mundo com critérios que não são os do mundo: resistir à lógica do medo, recusar que o ódio dite as escolhas, cultivar a paz onde se está — em casa, no trabalho, na forma como se usa a palavra, na maneira como se olha para o outro.

O Salmo disse-o com uma beleza que nenhuma teologia supera:

«Não morrerei, mas hei de viver, para anunciar as obras do Senhor.» Esta é a nossa missão: não nos deixarmos matar por dentro pelo desespero, pelo cinismo, pela resignação ao mal. Mas viver — e anunciar que o primeiro dia já começou. Que a luz já rompeu, mesmo quando nem todos a conseguem ver. Que o sepulcro está vazio. Que Cristo ressuscitou.

E nós somos testemunhas.

Que Maria, a primeira a acreditar — aquela que guardou tudo no coração quando os outros ainda não compreendiam, aquela que não abandonou o Filho nem na hora mais escura do Calvário e que esperou com uma fé que nenhuma pedra selada conseguiu vencer — nos ensine a correr também nós, como Pedro e João, ao encontro do Ressuscitado. Que ela, Rainha da Paz, interceda por este mundo partido e estilhaçado e nos ajude a ser, cada dia, artesãos daquela paz que o mundo não pode dar, mas que Cristo nos deixou como herança.

Feliz Páscoa a todos. Aleluia.

† Sérgio Dinis,

Bispo do Ordinariato Castrense de Portugal

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