Diz o livro do Génesis que, quando Deus começou a obra da criação, a terra estava “deserta e vazia”, sem ordem. Por meio da sua Palavra, Deus começou a criar e a colocar ordem nos diferentes elementos. E, para o fazer, não necessitou de mais nada senão da Palavra: “Deus disse: ‘haja luz’. E houve luz” (Gn 1,3).

A criação é fruto do dizer, da Palavra divina. Isso significa que Deus criou do nada tudo quanto existe — ou seja: Deus não necessitou de uma “matéria prima”, de um qualquer outro princípio, mesmo de uma qualquer outra realidade que se lhe opusesse, um “não” que fosse. Bastou-Lhe proferir uma Palavra, expressar-Se. E isso significa, também, que a Sua Palavra traz consigo, como necessidade, o efeito daquilo que diz. Deus diz e a realidade acontece. Quando Deus fala, a vida, a história, a realidade acontece, muda, entra em movimento. A Sua Palavra é a expressão autêntica, direta, eficaz, plena do poder, da vontade de Deus: é a expressão do mais íntimo da Sua Vida — expressão das Suas “entranhas”, diz a Escritura em vários passos.

A Palavra expressa, mostra Deus: dá-nos conta da Sua intenção, da Sua vontade, do desejo de viver em comunhão com os homens, como aliás reconhece o Livro dos Provérbios, referindo-se à Sabedoria (um outro nome para a “Palavra” divina): “O Senhor me criou, primícias de sua obra, de seus feitos mais antigos. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes da origem da terra. […] Eu estava junto com Ele como mestre-de-obra; eu era o seu encanto todos os dias, todo o tempo brincava na sua presença: brincava na superfície da terra, encontrava as minhas delícias entre os homens” (Prov. 8,22-23.30-31).

Desde o início, Deus cuida da sua obra. Não a cria para a abandonar. O próprio conceito de “criação” traz consigo a afirmação do cuidado divino não apenas no momento primeiro da realidade mas em cada momento, em cada tempo. Nós, seres humanos, não estamos sós no mundo: Deus acompanha-nos, faz connosco caminho para nos conduzir à comunhão consigo (DV 2).

 

É a esta Palavra, original, criadora, eficaz, fundamento de comunhão dos seres humanos e de todo o criado com Deus, é a ela que se refere S. João no Prólogo do seu evangelho, como acabámos de escutar: “No princípio era o Verbo, e o Verbo era para Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1).

É pois neste Verbo (Palavra, Sabedoria, Razão, Expressão, Acontecimento) que encontramos a chave de tudo quanto existe, o segredo de toda a vida, a solução de todo o drama humano. É este Verbo, esta Palavra, que todos os seres humanos (crentes ou não) procuram conhecer. É Ele que se encontra na raiz das investigações dos cientistas; é Ele o motivo do pensamento dos sábios; o porquê do agir dos empreendedores e dos trabalhadores. É Ele a razão, o motor da existência humana: é a felicidade que todos os seres humanos buscam desesperadamente: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4).

Por isso, é de verdade “evangelho” (quer dizer: boa notícia) aquilo que o Apóstolo escreve aos seus leitores: “E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

O centro, o fundamento, o vértice de toda a realidade entrou na história, no tempo; a razão de ser de tudo quanto existe já não é apenas uma ideia, um sonho, um desejo: é este homem, Jesus de Nazaré. Ele é o Verbo, a Palavra de Deus, que ali se encontra, em carne humana, de modo que todos O possam ver, escutar, tocar: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com o nossos olhos, o que contemplámos e o que as nossas mãos tocaram acerca do Verbo da vida — porque a Vida se manifestou; nós vimo-La e dela vos damos testemunho, e vos anunciamos esta vida eterna que estava para o Pai e que nos apareceu — o que vimos e ouvimos vos anunciamos para que estejais também em comunhão connosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. E isto vos escrevemos para que a vossa alegria seja completa” (1Jo 1,1-4) — escreve o mesmo S. João ao começar a sua Primeira Carta.

É este acontecimento único, impensável, que jamais tinha passado pela mente humana — é este acontecimento de Deus que na sua Palavra se faz homem mortal (mais: que se faz Menino, nascido pobre no meio de animais, num Presépio, para que os mais pobres entre os pobres O pudessem visitar, adorar, reconhecer, alegrar-se com o seu nascimento e viver em comunhão com Ele desde o início) — é este acontecimento que hoje celebramos, o centro da história e de toda a realidade. É neste acontecimento que consiste o Natal. É deste acontecimento que surgem, depois, todas as consequências que enchem, desde então, a celebração deste dia: a paz, harmonia, alegria, vida comunicada e partilhada, festa, abundância, música, luz.

Deus fez-se homem. Fez-se carne. Um como nós, mortal, frágil. E, nesse momento, a história encontrou o seu centro, encontrou o acontecimento à volta do qual tudo gira. A razão de ser de tudo o que existe, o motor que tudo faz mover e acontecer.

É por referência a Ele que avaliamos o que está à nossa volta e em nós. Ele é o critério da nossa existência; o diapasão que nos permite distinguir o bem do mal: “O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo; e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu” (Jo 1,9-10).

  1. Que carne é esta, a de Jesus? Que viram Maria e José, os Pastores e os Magos e todos quantos visitaram o Presépio?

Viram um recém-nascido, frágil como todos os recém-nascidos; a necessitar de cuidados, de mimos; a pedir que o alimentassem; a abrir os olhos, a boca e as mãos pedindo que o acolhessem. A carne de Jesus é a carne frágil da humanidade, de toda a humanidade. É a carne da fragilidade que nos marca como seres passageiros, mortais, limitados.

O Natal é, por isso, o início da cruz. E esta constitui a consequência da vontade divina de se fazer um com os pobres mais pobres. É nesta carne que resplandece a glória de Deus. É nesta fragilidade que Deus vem ao nosso encontro. Como pode Deus nascer num estábulo, entre animais, pobremente? Como pode Deus crescer no seio de uma família de refugiados? Como pode Deus trabalhar numa oficina de operários? Como pode Deus caminhar de aldeia em aldeia, sem uma pedra onde repousar a  cabeça? Como pode Deus ser julgado, condenado, levado à morte de cruz? Mas é nesta carne de Jesus de Nazaré que Deus se manifesta e vem ao nosso encontro. Pede que O recebamos, que O acolhamos, que O deixemos entrar em nossa casa, no nosso coração.

É nesta mesma carne da fragilidade que Ele continua hoje a vir ao nosso encontro, pedindo que O acolhamos: “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes-me ver” (Mt 25,35-36).

E esta fragilidade, na qual o Senhor se manifesta, estende-se ainda mais. Estende-se à fragilidade das Escrituras (palavras e frases à espera que O escutemos). Estende-se à fragilidade da Igreja (povo de pecadores a caminho da eternidade, convidando a quantos encontra pelas estradas para caminhar ao encontro do Senhor). Estende-se à fragilidade dos sacramentos — e, de um modo particular, à Eucaristia: na fragilidade do pão e do vinho consagrados está verdadeiramente presente o Menino do Presépio, o Senhor, o Deus feito carne que, deste modo, encarna, assume o corpo eucarístico, para nos fazer membros do seu corpo.

Hoje é Natal. Deus vem ao nosso encontro. Vem, de um modo particular, na Sua Palavra proclamada e na Eucaristia comungada, que a todos nos une e transforma no Seu Corpo.

Verdadeiramente (por entre os cânticos, a alegria, a emoção interior), o Verbo continua hoje a fazer-Se carne. Deixemos que Ele encontre o nosso coração e o dilate; que encontre a nossa fragilidade e a transforme; que encontre o nosso pecado e nos converta e purifique.

Que hoje seja Natal: Deus-connosco, vida divina em nós e para todos.

 

Funchal, 25 de dezembro de 2020

D. Nuno Brás

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