
«Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga». Com estas Palavras, S. Lucas retrata a atitude de todos os que estavam à volta de Jesus de Nazaré e oferece-nos a nós, hoje, o desafio a colocarmo-nos perante Jesus de Nazaré com o nosso olhar fixo n’Ele.
Sim, caríssimos sacerdotes, convido-vos a vós e eu convosco, a fixarmos o nosso olhar no de Cristo para d’Ele aprendermos e saborearmos tudo o que o Seu olhar nos revela.
Como afirma o Papa Francisco, dirigindo-se aos sacerdotes, na missa crismal de 2024, «não cessa de nos impressionar esta passagem do Evangelho, que nos leva a visualizar a cena, a imaginar aquele momento de silêncio com todos os olhares voltados para Jesus, num misto de maravilha e surpreza».
Na verdade, como afirma S. João Paulo II, «é este o rosto de Cristo, no qual os olhos da fé e do amor dos cristãos devem permanecer fixos» (PdV. 11). E ainda, precisamente a partir desta “contemplação” e tendo-a como ponto de referência podemos, nós sacerdotes, reavivar o dom da unção que recebemos no dia da nossa ordenação e orientar a nossa missão pastoral pelos critérios de Jesus Cristo.
Só nesta profundidade, perante o olhar de Jesus de Nazaré, conhecemos a riqueza do sacerdócio ministerial enquanto participação na Igreja do mesmo sacerdócio de Jesus Cristo.
Fixando o nosso olhar no de Cristo, descobrimos que «é no interior do mistério da Igreja como comunhão trinitária em tensão missionária, que se revela a identidade cristã de cada um e, portanto, a específica identidade do sacerdote e do seu ministério» ( PdV. 12).
Como refere ainda S. João Paulo II, «o presbítero, de facto, em virtude da consagração que recebe pelo sacramento da Ordem, é enviado pelo Pai, através de Jesus Cristo, ao qual como Cabeça e Pastor do seu povo é configurado de modo especial para viver e actuar, na força do Espírito Santo, ao serviço da Igreja e para a salvação do mundo» (PdV. 12).
Caríssimos sacerdotes, «assim se pode compreender a conotação essencialmente “relacional” da identidade do presbítero: mediante o sacerdócio, que brota das profundezas do mistério de Deus, ou seja, do amor do Pai, da graça de Jesus Cristo e do dom de unidade do Espírito Santo, o presbítero é inserido sacramentalmente na comunhão com o Bispo e com os outros presbíteros, para servir o Povo de Deus que é a Igreja e atrair todos a Cristo» (PdV. 12).
Deste modo, os presbíteros recolhem na contemplação do olhar de Jesus de Nazaré o apelo a prolongar a presença de Cristo, único e sumo Pastor, actualizando o seu estilo de vida e tornando-se como que a Sua transparência no meio do rebanho a eles confiado (cfr. PdV 15).
De facto, «os presbíteros existem e agem para o anúncio do Evangelho ao mundo e para a edificação da Igreja em nome e na pessoa de Cristo Cabeça e Pastor» (PdV. 15).
Convido a interiorizar o que daqui a pouco iremos proclamar no prefácio desta celebração eucarística ao dizer que «com a unção do Espírito Santo, constituístes o Vosso Filho Pontífice da nova e eterna Aliança, e quisestes que o seu único sacerdócio fosse perpetuado na Igreja. Ele comunica o sacerdócio real a todo o povo dos redimidos e com amor de predilecção escolhe alguns de entre os irmãos que, mediante a imposição das mãos, faz participantes do seu ministério de salvação. Vós quereis que em seu nome renovem o sacrifício redentor, preparem para vossos filhos o banquete pascal, e, servos primorosos do vosso povo, o alimentem com a vossa palavra e o santifiquem com os sacramentos. Vós lhes propondes Cristo como modelo, para que, oferecendo a vida por vós e pelos irmãos, se esforcem por se conformar à imagem de vosso Filho e deem testemunho de fidelidade e de amor generoso».
Na verdade, «a relação do sacerdote com Jesus Cristo e, n’Ele, com a Sua Igreja situa-se no próprio ser do presbítero, em virtude da sua consagração/unção sacramental, e no seu agir, isto é, na sua missão ou ministério» (PdV.116).
Sempre em união a Cristo, o sacerdote é «servidor da Igreja mistério porque actua os sinais eclesiais e sacramentais da presença de Cristo ressuscitado»; «é servidor da Igreja comunhão porque – unido ao Bispo e em estreita relação com o presbitério – constrói a unidade da comunidade eclesial na harmonia das diferentes vocações, carismas e serviços».
E, «é finalmente servidor da Igreja missão porque faz com que a comunidade se torne anunciadora e testemunha do Evangelho» (Pdv. 16).
Contudo, caríssimos sacerdotes, do mesmo modo que devemos colocar o nosso olhar contemplativo em Jesus de Nazaré, também o Povo de Deus e as pessoas em geral colocam o seu olhar em nós presbitério e em cada um de nós como Pastor na comunidade cristã.
Neste olhar, os nossos contemporâneos esperam ver a Jesus Cristo Vivo e o Seu Evangelho. Perguntamo-nos, não será nossa obrigação de responder às suas inquietações e perguntas e sobretudo com o nosso testemunho conduzi-los até Jesus Cristo?
Mais ainda, esperam ver em nós o «homem de Deus, aquele que pertence a Deus e faz pensar em Deus». Por isso, «os cristãos esperam encontrar no sacerdote não só um homem que os acolhe, que os escuta com todo o gosto e lhes testemunha uma sincera simpatia, mas também e sobretudo um homem que os ajuda a ver Deus, a subir em direcção a Ele» (PdV. 47). Daí que «é necessário, portanto, que o sacerdote seja formado para uma profunda intimidade com Deus» (PdV. 47).
Também os nossos contemporâneos procuram no sacerdote o homem da misericórdia e da caridade. Sim «o homem da caridade, e é chamado a educar os outros para a imitação de Cristo e para o Seu mandamento novo do amor fraterno (cf. Jo 15, 12) (PdV. 49).
Mas para tal, exige-se do sacerdote que «ele próprio se deixe continuamente educar pelo Espírito para a caridade de Cristo» de modo que na sua vida transpareça «o amor preferencial pelos “pobres”, nos quais a fé descobre a presença de Jesus (cf. Mt 25, 40), e para o amor misericordioso pelos pecadores» (PdV. 49).
A partir da realidade do mundo de hoje, os nossos contemporâneos colocam o olhar no sacerdote de modo a reconhecer nele o homem da comunhão e do diálogo. Sim caros sacerdotes, «profundamente radicado na verdade e na caridade de Cristo e animado do desejo e do imperativo de anunciar a todos a sua salvação, ele é chamado a encetar um relacionamento de fraternidade, de serviço, de procura comum da verdade, de promoção da justiça e da paz, com todos os homens» (PdV. 18).
E por fim a urgência de uma nova evangelização, recordo que, mesmo sem o expressarem, os homens e as mulheres do nosso tempo estão sedentos de uma Boa Nova de Esperança.
Deste modo, «a prioritária tarefa pastoral da nova evangelização, que diz respeito a todo o Povo de Deus e postula um novo ardor, novos métodos e uma nova expressão para o anúncio e o testemunho do Evangelho, exige sacerdotes, radical e integralmente imersos no mistério de Cristo, e capazes de realizar um novo estilo de vida pastoral, marcado por uma profunda comunhão com o Papa, os Bispos e entre si próprios, e por uma fecunda colaboração com os leigos, no respeito e na promoção dos diversos papéis, carismas e ministérios no interior da comunidade eclesial» (PdV. 18).
O Evangelho de S. Lucas que escutámos, ao descrever a cena de Jesus de Nazaré na Sinagoga refere que Jesus menciona a sua missão de anunciar a Boa Nova aos pobres referindo que hoje cumpriu-se este passo da Escritura que acabamos de ouvir.
Com este «hoje», Jesus Cristo está a chamar-nos a uma missão que sendo centrada nos Seus critérios exige de nós uma permanente actualidade e renovação.
Neste contexto, caros sacerdotes, e nesta celebração em que renovamos a nossas promessas sacerdotais, exorto a cada um de vós e a todos nós em presbitério a comprometermo-nos na formação permanente, atendendo à exigência de uma formação integral, na fidelidade a Cristo e à pessoa de hoje.
O Povo de Deus tem direito a que os seus Pastores lhe ofereçam o Evangelho e os Sacramentos, o ajude no discernimento dos Sinais dos Tempos e na sua participação activa na missão da Igreja, numa permanente renovação.
A comunhão de vida com Cristo exige uma permanente formação integral para que a missão seja lúcida, reconfortante e adequada aos nossos tempos.
Por último, convido a sintonizarmos com o nosso itinerário em direcção ao Jubileu da nossa diocese. Neste sentido, no contexto da renovação das nossas promessas sacerdotais, recordar as grandes linhas de renovação pastoral que nos impomos: a primeira, ser comunidade diocesana à maneira dos Apóstolos, Evangelizadora e de portas abertas; a segunda, Ser Comunidade Diocesana, fermento do Evangelho no meio do Mundo, evangelizar em diálogo com o Mundo, integradora e em saída; a terceira, Ser Comunidade diocesana em continua renovação evangélica, Portadora da Boa Nova – fiel a Jesus Cristo e ao Homem de hoje.
Se esta exigência é destinada a todo o Povo de Deus, certamente reconhecemos que ela se dirige prioritariamente a nós sacerdotes.
Na renovação das nossas promessas sacerdotais que nos fazem reviver a alegria e a força evangelizadora da primeira hora, tenhamos presente que «o presbítero participa na missão e consagração de Cristo de modo específico e de plena autoridade, ou seja, mediante o sacramento da Ordem, em virtude do qual é configurado, no seu ser, a Jesus Cristo Cabeça e Pastor, e partilha a missão de “anunciar aos pobres a Boa Nova” em nome e na pessoa do próprio Cristo» (PdV. 18).
Imploremos do Bom Pastor que, na alegria e na esperança, nos torne verdadeiramente testemunhas da beleza do sacerdócio, de modo a que seja abertura de caminho vocacional para os jovens da nossa diocese.
Aproveito para vos desejar uma frutuosa celebração do Triduo Pascal e apresentar-vos a vós, às vossas famílias e às vossas comunidades cristãs, santa Páscoa em Cristo Ressuscitado.
Imploro de Nossa Senhora, Santa Maria Maior, Mãe dos sacerdotes, de S. Bartolomeu dos Mártires, de S. Teotónio e S. Paulo VI, que nos abençoem a cada um e a todo o presbitério e que sejam para todos nós estimulo na evangelização do mundo de hoje.
Ámen
+João Lavrador, Bispo de Viana do Castelo
