Igreja de Lamego, chamada, ungida e enviada

Diocese de Lamego

«Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós» (Jo 15,16)
«Quem hei de enviar? Eis-me aqui, envia-me a mim!» (Is 6,8)

 

  1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu para anunciar o evangelho aos pobres», assim se diz a si mesmo o servo-profeta de Isaías 61,1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu para anunciar o evangelho aos pobres», repete Jesus na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,18), assumindo sobre Si a missão da paz e da alegria do Ano da Graça do Senhor. Em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, Pedro relê nestes termos esta bela missão de Jesus: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, a partir do Batismo que João anunciou: como Deus ungiu com o Espírito Santo […] Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem» (Atos dos Apóstolos 10,37-38). Bem entendido, Pedro mostra Jesus, ungido com o Espírito Santo, a atravessar todo o território de Israel e de Lamego, todo o território, mas também as artérias do coração e da pulsação, num verdadeiro vendaval de mansidão que enche as pessoas de Bem, de Bondade e de Beleza, unindo-as e reunindo-as e ungindo-as com o óleo da Alegria. É assim que Jesus é apresentado a cumprir a missão da paz e da alegria do Ano da Graça do Senhor.

 

  1. O Livro do Levítico expõe, num versículo admirável (25,9), o milagre do Ano da Graça do Senhor ou Ano Jubilar ou Jubileu. Este Ano da Graça ou Ano Jubilar, que se celebra de 50 em 50 anos, abre na Festa do yôm-kippûr do ano 49 e fecha na Festa das Tendas do Ano 50. Abre-o e fecha-o o toque do shôphar, que emite um som cavo, fundo e intenso. Mas mais do que as ferramentas, importa mostrar a mensagem do texto, que é aquele acicate contido no texto, com que o texto nos atinge, nos explica e nos implica. Lembro que o texto é muito pequeno, um só versículo, que começa com: «tu farás passar um shôphar», e termina com: «vós fareis passar um shôphar». Faço notar que se trata da mesma expressão repetida, palavra por palavra, com uma pequena, grande diferença: a passagem do «tu» para o «vós»: «tu farás passar um shôphar»; «vós fareis passar um shôphar». O milagre ou o acicate do Ano da Graça do Senhor ou Ano Jubilar reside todo nesta passagem do «tu» para o «vós», ou seja, na passagem de uma simples soma ou amontoado de indivíduos para um Povo unido e reunido e ungido que encontra a sua identidade e unidade, não conquistando-a, mas recebendo-a. As coisas supremas não são planificáveis. Já estão prontas para receber.

 

  1. Voltando a ler o texto, ficamos com a impressão de uma verdadeira procissão ou avalanche de Graça que vai atravessando o território de Israel, e, à medida que vai passando, vai engrossando e congregando todas as pessoas, mais ou menos à semelhança de quem vai entrando numa farândola, que é uma antiga dança provençal executada de mãos dadas. No nosso caso, caríssimos irmãos no sacerdócio e no batismo, que formamos o corpo vivo da nossa Diocese de Lamego, tratar-se-ia da extraordinária operação de passagem de não sei quantos indivíduos para uma verdadeira família Paroquial e Diocesana. Esta extraordinária passagem do shôphar e de Jesus Cristo pelo território de Israel e da nossa Diocese de Lamego, e aquele simples «porque o Senhor me ungiu», «porque o Senhor nos ungiu», projetam no horizonte o milagre de um banho de água batismal, um caudal de óleo crismal a escorrer pela cabeça, pelo rosto, pelas vestes deste agora Povo de Deus, todo sacerdotal e santo (Êxodo 19,6; 1 Pedro 2,5.9; Apocalipse 1,4-6; 5,10), mas que antes não era sequer povo (1 Pedro 2,10).

 

  1. Dizia bem a lição de Hoje do Livro do Apocalipse: «Graça e paz […] da parte de Jesus Cristo, Aquele que nos ama, que nos libertou dos nossos pecados com o seu sangue, e fez de nós um Reino de Sacerdotes» (Apocalipse 1,4-6), respondendo e cumprindo a lição do Livro do Êxodo 19,6, em que Deus dizia, com o verbo no futuro: «Farei de vós um Reino de Sacerdotes». Guardemos connosco, Hoje, amados irmãos, esta unção e este reino de sacerdotes.

 

  1. Povo Santo de Deus, aí está a tua bela e funda identidade: Povo sacerdotal, batizado, crismado, cristificado. Cristificado, mas não cristalizado ou petrificado. Encharcado em Cristo e de Cristo. Por isso, diz bem São Paulo aos Coríntios: «Vós sois de Cristo (tu és de Cristo), e Cristo é de Deus» (1 Coríntios 3,23). «Porque o Senhor me ungiu», diz o servo-profeta. «Porque o Senhor me ungiu», diz Jesus Cristo. «Porque o Senhor nos ungiu», digamos nós também. Significa isto, antes de mais, amados irmãos no sacerdócio, no batismo e na unção, que, para nos ungir com o seu óleo perfumado, Deus se aproxima tanto de nós, que toca em nós com as suas mãos carinhosas e infunde em nós, com um beijo, o seu alento criador! Exatamente como fazemos nós, ou como Deus faz por nós, quando ungimos com o óleo do crisma os recém-batizados, os crismados, os sacerdotes, os bispos, o corpo da igreja e os altares no dia da sua dedicação.

 

  1. É este óleo do Crisma, com que todos somos ungidos no coração, identificando-nos assim com Cristo, que vai ser, nesta Missa Crismal, confecionado e consagrado pelo Bispo, com o testemunho e cooperação dos Sacerdotes. Vão igualmente ser benzidos o óleo dos enfermos, destinado a servir de remédio e de alívio aos doentes, e o óleo dos catecúmenos, destinado a preparar e dispor os catecúmenos para o Batismo.

 

  1. O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a todos os nossos irmãos. Se somos outros Cristos, Ele está connosco, Ele vai connosco, em nós, no meio de nós.

 

  1. Caríssimos irmãos no sacerdócio, que formais comigo o presbitério da Igreja de Lamego, caríssimos irmãos no batismo e na unção, Igreja de Lamego, chamada, ungida, enviada e amada por Deus: responde Hoje pela tua vocação e missão, não conquistadas, mas de Graça recebidas! Ou «que tens tu que não tenhas recebido?» (1 Cor 4,7). Passemos, pois, do «tu» para o «vós», do «eu» para o «nós». Ungidos por Deus com o Espírito Santo, passemos nós também, como Jesus e com Ele, por toda a nossa terra, enchendo as pessoas de Bem, de Bondade e de Beleza. Igreja de Lamego, chamada, ungida, enviada e amada por Deus, responde hoje pela graça da tua vocação, da tua unção, da tua missão!

 

  1. Peço aos sacerdotes que renovem Hoje, neste Dia Bendito, com Unção e Alegria, as promessas que enchem o seu coração sacerdotal, para que saibam sempre levar o suave perfume de Cristo a todos os irmãos que lhes são confiados. E aos Fiéis Leigos peço que rezem pelos seus sacerdotes, para que sejam sempre fiéis a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. É Ele, Jesus Cristo, que nos ama, nos chama e nos envia. A Ele a honra, a glória e o louvor, a nossa gratidão e o amor do nosso coração. Amén.

 

Lamego, 18 de abril de 2019, Quinta-Feira Santa, Homilia na Missa Crismal

+ António, vosso bispo e irmão

Partilhar:
Share