1 – Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também (Jo 13, 14-15).

Queridos irmãos e irmãs: ouvimos, há momentos, estas palavras. São palavras que nos dirige Cristo, Nosso Mestre e Senhor. Começa por nos perguntar se compreendemos o que Ele nos faz. Compreender é mais do que saber, é muito mais do que estar informado. Compreender o que Jesus fez por nós, é abranger com a inteligência e com o coração o mistério das ações de Jesus. É recebê-las como palavras eficazes que o Senhor dirige a nós discípulos para nos ensinar a segui-l’O. Quem é que não sabe que Jesus lavou os pés aos discípulos? E desses muitos que o sabem, quantos fazem o que Jesus mandou? Compreende bem a palavra do Senhor todo aquele que a escuta, a guarda, a medita e a toma como norma do seu agir, todo aquele que se vê compreendido, abrangido por ela.

Hoje, neste evangelho, Jesus manda-nos imitá-l’O, ordena-nos que, lavemos nós os pés uns aos outros. Como Ele nos fez. Com o mesmo amor, com o mesmo espírito e com os mesmos sentimentos d’Ele. Lavar os pés aos irmãos é abaixarmo-nos até àquilo que eles têm mais baixo, é considerá-los mais importantes do que nós, é vermo-nos a nós colocados no último lugar da terra, como escravos e servos de todos.

A Pedro, que reagiu negativamente à proposta de Jesus lhe lavar os pés, o Senhor disse solenemente: Se eu não te lavar, não terás parte comigo! Para termos comunhão com o Senhor, e n’Ele, uns com os outros, caríssimos irmãos, é necessário deixarmos que Ele nos lave.

2 – A Igreja é o lugar da comunhão com Cristo, lugar onde cresce a comunhão fraterna. Entendermos o mistério da Igreja, nesta perspetiva, exige-nos um discernimento. Porque há comunhão e comunhão; há comunhão psíquica e comunhão espiritual. A comunhão psíquica funciona humanamente em torno de alguém especialmente dotado. A comunhão espiritual tem como fonte o Espírito Santo. A comunhão psíquica termina quando um dos membros se porta mal e é desonesto. A comunhão espiritual começa precisamente quando, ao manifestar-se o pecado de cada um, os diversos membros recebem o Espírito Santo. É assim uma comunhão de pecadores em conversão. Esta é a comunhão dos cristãos, esta é a comunhão que cultivamos na igreja e também nas nossas famílias. Uma comunhão apenas possível graças ao Espírito Santo que nos habita.

Há no Evangelho segundo São Lucas uma passagem que choca bastante a nossa sensibilidade. Seguiam Jesus grandes multidões. E o Senhor disse àquelas pessoas: se alguém vem ter comigo e não odeia o pai, a mãe, os filhos e a própria vida, não pode ser meu discípulo. Ser cristão, queridos irmãos e irmãs, é sermos discípulos do Filho de Deus feito homem, é reconhecermos o Seu amor por nós como a fonte da nossa vida e do nosso amor para com Ele e para com o próximo. Ele deu a Sua vida por nós. Perante o Seu imenso amor para connosco, é normal que as nossas relações amorosas nos surjam como exercícios de escravidão afetiva. Para amarmos os nossos irmãos e os nossos familiares precisamos primeiro de amar a Deus. E Cristo é Deus!

Ele amou-nos até ao fim. Fez-Se, por nosso amor, servo obediente até à morte e morte de Cruz. E deixou-nos na Eucaristia, o Seu corpo entregue e o Seu sangue derramado para nós comermos e bebermos e estarmos assim em comunhão com Ele.

3 – Comungamos o Corpo de Jesus, ou melhor, recebemos a comunhão sacramental do Seu Corpo na Eucaristia, mas verificamos também que essa comunhão, embora feita com devoção, muitas vezes não se traduz numa comunhão concreta com os irmãos. Porquê? Quando eu era novo, lembro-me de que, regra geral, as pessoas tinham muitos escrúpulos em comungar se não estivessem devidamente preparadas, ou seja, com os seus pecados confessados e perdoados. Atualmente, é muito raro que alguém se exclua de receber o Corpo de Cristo, quando participa na missa. Cada um comunga, não por graça e misericórdia, mas como se exercesse um direito. Quem se lembra hoje e leva a sério a séria admoestação de são Paulo: quem come o corpo do Senhor indignamente come a sua própria condenação? A eficácia sacramental depende em grande parte, caríssimos irmãos, da consciência limpa com que recebemos os sacramentos. O Corpo de Jesus que comungamos é o Corpo entregue, dado, oferecido por Amor a nós para que deixemos de viver para nós próprios e amemos o próximo como Jesus nos amou. Aquele que se une ao Senhor, ensina S. Paulo, forma com Ele um só espírito. E por esse espírito dizemos as palavras d’Ele, e realizamos as suas mesmas obras – Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço – disse o Senhor. Caríssimos irmãos, temos um longo caminho a percorrer, para que possamos manifestar ao mundo a sublime comunhão e o Amor que Cristo nos oferece no Santíssimo Sacramento da Eucaristia

4 – Não é possível alguém conseguir esta comunhão pelas suas próprias forças. Para no-la dar, Cristo, Nosso Senhor e Mestre, veio ao mundo. Aceitemos, queridos irmãos, que Ele nos lave nas águas do Batismo e nas lágrimas da Penitência e nos dê o seu Espírito de humildade e de caridade. E aquilo que nos parece impossível e desagradável se tornará fácil e aprazível para nós. A caridade que Cristo nos manda praticar tem, como alicerce, a humildade e a verdade.

Habitualmente, neste dia de Quinta-Feira Santa, depois da homilia, a Igreja manda-nos fazer o lava-pés. Este ano não o faremos dados os condicionalismos da pandemia. Mas, não esqueçamos que os gestos simbólicos alcançam a sua plenitude na realização existencial daquilo que significam. Assim, pela humildade e pela caridade nos nossos relacionamentos, realizemos com perseverança, em obediência a Cristo, os humildes serviços significados pelo lava-pés.

D. João Marcos

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