Pároco de Manteigas recorreu ao rito do lava-pés, que contou com a participação de 12 mulheres

Foto: Liliana Carona/RR

Guarda, 23 abr 2019 (Ecclesia) – Em Manteigas, na Diocese da Guarda, o início do Tríduo Pascal deu espaço para a abordagem em comunidade da temática da violência doméstica, de modo a sensibilizar as pessoas para este “flagelo” social.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o padre Luís Freire, responsável pela Paróquia de Manteigas, realçou hoje “uma realidade que a Igreja tem de ajudar a denunciar”, em primeiro lugar “quebrando com a mentalidade” que está instalada.

Só desde o início do ano, em Portugal, já morreram 12 mulheres vítimas de violência doméstica, às mãos de namorados, maridos, ex. companheiros ou de outros familiares.

De acordo com o sacerdote, na localidade de Manteigas também “se registaram ultimamente dois casos mais flagrantes”, que envolveram “molduras penais”.

“A violência doméstica nos meios mais pequenos e mais rurais acaba infelizmente por ser socialmente aceite, devido a uma certa cultura machista que existe, de transmissão cultural, em que a mulher sofre e sofre em silêncio”, apontou o padre Luís Freire.

Para “criar um alerta”, o pároco de Manteigas recorreu ao rito do lava-pés, na Quinta-Feira Santa, que contou com a participação de 12 mulheres.

“A celebração foi bastante emotiva porque, entre essas 12 mulheres que estavam inscritas, havia gente que sofria com esse flagelo”, salienta o sacerdote, que considera fundamental que a Igreja Católica “aproveite estes momentos de oração” para deixar uma mensagem clara a quem “possa ainda ter uma mentalidade mais desarrumada”.

A violência aqui acontece de várias formas, não falamos só de violência física, são vários tipos de violência muitas vezes justificados pelo amor ou pelo desejo de perfeição do outro. E não há qualquer justificação para isso. É este grito que a Igreja tem de ir anunciando”.

Toda a organização da celebração do lava-pés na Paróquia de Manteigas esteve centrada em duas ideias: quebrar a cadeia de violência e fomentar o amor nas comunidades e famílias.

“Nós pusemos uma mesa, um altar que se prolongou pela igreja toda, com as pessoas à volta do altar. E depois o momento do lava-pés foi um momento de comunhão muito grande, de vivência do sofrimento do outro”, contou o padre Luís Freire.

Para este responsável, é essencial que a Igreja Católica consiga também abordar esta questão da violência doméstica desde a raiz, junto das novas gerações, no namoro, junto dos futuros casais, na preparação para o matrimónio, desconstruindo inclusivamente alguns conceitos, como o da “submissão”.

“Quando fazemos a proposta de um amor submisso isto acaba por ter aqui uma conotação muitas vezes negativa, que não pode ser de maneira alguma o discurso da Igreja. O que é necessário é fazer entender essa submissão ao amor, e quando se ama verdadeiramente não se pode exerce qualquer tipo de coação sobre o outro. Isto é fundamental transmitir-se até na nossa catequese”, defendeu o sacerdote.

Outra problemática que, na opinião daquele responsável católico, deve ser mais debatida é a da “igualdade de oportunidades entre os dois sexos”.

“Nós estamos a gastar demasiadas energias e tempo a falar de igualdade de género, mas depois não nos lembramos de explicar o que é igualdade de oportunidades, o que é um erro basilar porque a educação dos jovens tem de passar muito por aqui para podermos progredir”, conclui o padre Luís Freire.

JCP

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