Verão de 2025 foi «provocador» para quem conhecia o drama dos fogos «apenas pela televisão»

Guarda, 13 mar 2026 (Ecclesia) – O bispo da Guarda defendeu que devem ser dados passos na forma de proximidade de organização do território, admitindo que se tornou sensível à regionalização, falando a propósito da resposta aos incêndios do verão 2025.
“Como uma pessoa de Lisboa, eu não era tão sensível à questão da regionalização. Eu não sei se é a regionalização política. Essa parte, em termos da estrutura e da configuração, é para os políticos, não é para o bispo”, começou por dizer D. José Pereira, em declarações à Agência ECCLESIA e ao jornal A Guarda.
O responsável considera, no entanto, que há trabalho a fazer no que respeita à ligação entre estruturas do Governo e da Proteção Civil.
Não pode ser só um comando operacional central, que depois convoca forças de todo o país para virem em socorro, mas depois não conhecem o território”, referiu.
A Guarda foi um dos territórios afetados pelos fogos que assolaram o centro e norte do país em agosto de 2025, uma realidade que D. José Pereira, ordenado bispo há quase meio ano, só “conhecia pelas televisões” e com ela se confrontou pela primeira vez de forma próxima.
“E isto, de facto, também foi provocador para mim. Na altura procurei ir acompanhando, ter uma palavra com as comunidades, até me dispus inicialmente a visitar as comunidades afetadas”, conta.
No entanto, toda a diocese acabou por ser fustigada e o bispo acabou por não conseguir ir ao encontro de todas as zonas atingidas, apesar de ir tentando manter o contacto.
“Naqueles casos em que houve mesmo vítimas, eu estive presente nos funerais das vítimas, e tentei dar uma palavra de proximidade e de esperança para com as famílias e para com as populações locais”.

O presidente da Câmara do Sabugal, Vítor Proença, recorda aquele que foi “um dos maiores incêndios do território”, em agosto de 2025, que causou “um impacto tremendo” na paisagem, na fauna e flora, deixando “marcas profundas”.
“Foram os piores dias na minha qualidade de autarca”, testemunha, realçando que viveram-se “momentos muito dramáticos”, com “populações completamente cercadas de fogo”.
“Houve gente a perder completamente tudo, as suas pastagens, os seus sistemas de rega, as suas culturas, as suas árvores de fruto, as suas alfaias”, lembra.
O presidente da Câmara do Sabugal salienta que o facto de o concelho estar concelho estar “cheio de gente” para as festas do verão foi um “fator muito importante” para que a situação “não tivesse tomado repercussões tão complicadas”.
“Os animais andavam à toa completamente no mato, não tinham para onde ir, estava tudo queimado. Também aí tivemos uma preocupação muito grande. Felizmente que também o Estado teve um papel importante. Disponibilizou logo meios financeiros muito rapidamente para nós acudirmos a essas situações”.
Os incêndios inspiraram a edição de 2025 do ‘Sabugal Presépio’, que incorporou elementos naturais que contaram histórias de perda, união e reconstrução.
“As pessoas estavam muito tristes, amarguradas, e nós quisemos também dar ali esse mote, também para os mais jovens, sensibilizar os mais jovens, através de muita sensibilização ambiental, muita educação ambiental, para que eles também vivam isto um bocadinho e que levem essa mensagem”, explica o autarca.

Em conjunto com os trabalhadores do município, Beatriz Rodrigues voltou a idealizar a iniciativa este ano.
“Achei que poderíamos aproveitar todas aquelas árvores e as giestas negras para trazê-las para o presépio para que todos possamos, no fundo, fazer o nosso luto conjunto e ao mesmo tempo trazer uma luz de esperança a todos que precisamos”, expressou a artista plástica.
Questionados sobre que impacto teve o evento, Beatriz Rodrigues e o presidente da Câmara do Sabugal dão conta que os ecos recebidos foram positivos.
“Claramente cumpriu [o objetivo], porque a ideia é que nós colocássemos isso [incêndios] na ordem do dia e conseguimos”, destaca Vítor Proença.
“Eu gosto de pensar que […] conseguimos passar a mensagem, que as pessoas saíram com algumas ideias para elas porem em prática algumas coisas”, assinalou Beatriz Rodrigues.
| A recuperação do meio ambiente após os incêndios vai estar em destaque no programa ‘70×7’, transmitido este domingo, pelas 7h28, na RTP2, que se centra no primeiro aniversário da ordenação episcopal de D. José Pereira, assinalado na segunda-feira, e apresenta outras realidades da diocese. |
LJ/PR
