O santo de Assis pautou-se pela «liberdade de pensamento», «abriu a porta», quis incluir na Regra uma menção direta ao Espírito Santo e encontra-lo «mais fora do que dentro do convento»
Lisboa, 15 mai 2026 (Ecclesia) – O Frei Isidro Lamelas, padre da Ordem dos Franciscanos, salientou a marca que o “Espírito Santo” deixou na identidade da congregação fundada há 800 anos por São Francisco de Assis, onde a “liberdade e a alegria” se destacam.
“A alegria é uma característica do franciscanismo, de São Francisco e dos seus discípulos, e a liberdade, a liberdade dos filhos de Deus. Os franciscanos são, na gíria popular, identificados como os ‘os frades de manga larga’, uma certa liberdade de pensamento. É a liberdade do Espírito que marcou o início de São Francisco”, apontou à Agência ECCLESIA, o professor de Teologia e frade da Ordem Menor.
“O Espírito Santo não tem grelha, não tem clichês, não se enquadra numa única realidade, nem se pode deixar aprisionar por nenhuma espiritualidade, carisma, ou congregação, ou até movimento. Os companheiros de São Francisco, nenhum casting os escolhia hoje e São Francisco nunca lhes disse ‘estás-te a portar mal, não faças isto’. A regra que ele cria está cheia de exceções. Esta liberdade comportamental expressou-se também na liberdade de pensamento”, acrescenta.
O Frei Isidro Lamelas recorda a intenção de São Francisco de Assis incluir na regra, documento definitivo aprovado pelo Papa Honório III, em 1223, que rege a Ordem dos Frades Menores, uma menção ao Espírito Santo: «O Espírito Santo, que é o Ministro Geral da Ordem, repousa tanto sobre os pobres e simples como sobre os outros», mas “não foi a tempo”.
“Devido ao crescimento exponencial havia já um certo afastamento do tal espírito das origens, que é o que acontece sempre nas instituições. E ele, com receio, porque a Ordem estava a espalhar-se e a organizar-se sobretudo, (a nível) de orgânica, hierarquia, leis, normativa, sobretudo aqueles que conheciam São Francisco desde a origem, tinham a memória de um Francisco guiado pelo espírito, espontâneo, livre, podemos dizer carismático, no bom sentido, ele ao ver o risco desse afastamento toca este assunto”, explica.
A congregação dos Frades Menores denomina, ainda hoje, a reunião do novo governo, o Capítulo de Pentecostes, encontro onde os frades renovam os votos, apontando para o “Pentecostes onde nasceu a Igreja” e se “renova a missão”.
A herança de São Francisco de Assis, entende o Frei Isidro Lamelas, pode hoje continuar a derrubar “barreiras, sobretudo entre queles que estão mais periféricos”.
“A Igreja, e nós franciscanos especialmente, podemos ser um contributo para reaproximar, não estar à espera, como era mais o modelo clássico, que venham ter connosco, abrirmos as portas das igrejas, dos conventos e, tal como São Francisco, ir ter com as pessoas, abrir a porta para sair. Esse sair deve ser, obviamente, em primeiro lugar ir às periferias, como dizia o Papa Francisco, que se inspirava muito em São Francisco de Assis, e as periferias não são geográficas – são os mais necessitados, os mais pobres, talvez os mais afastados, e sobretudo não fazer acessão de pessoas, que é um dos sinais do Espírito”, indica.
O frade menor identifica também na “partilha franciscana” a “valorização dos dons do Espírito” e na “escuta” que fazia de todos sem exceção.
O Frei Isidro aponta ainda a marca dos “franciscanos espirituais” que na origem diziam não ser precisa “Igreja, hierarquia, ou instituição”: “Nós precisamos, sobretudo, de uma Igreja espiritual, onde todos profetizam, todos pregam, todos participam dos ministérios em igual condição, apontando aqui ao papel da mulher na Igreja”.
O professor de Teologia reconhece haver hoje “sinais de renovação” numa história com oito séculos, onde a intuição de São Francisco – “o Espírito não era para aqueles que vão para o convento, mas o Espírito sopra fora e até mais fora do que dentro” – continua a manifestar-se e, “com humildade, fazer aceitar o outono e o inverno da vida religiosa – há coisas na vida religiosa que têm mesmo que morrer – para que nasçam coisas novas na primavera”.
A conversa com o Frei Isidro Lamelas pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, emitido sábado na Antena 1, pelas 6h.
LS

