Professor de EMRC e teólogo assume que «falar de quem partiu é falar de esperança», num tempo em que a falta de cerimónias «complicam as despedidas»

Lisboa, 01 nov 2021 (Ecclesia) – Marco Bernardino, professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) e teólogo, perdeu os pais em agosto último, com um intervalo de 10 dias, e assume que sem despedidas, “o momento de esperança não se materializa”.

“Acompanhei as cerimónias do meu pai por telemóvel, naquilo que foi uma despedida possível. A sensação que tenho é que não tive a oportunidade de me despedir do meu pai. Não pôde haver cerimónias religiosas, (o corpo) foi diretamente para o cemitério, ali aconteceu a despedida possível, e foi tudo muito rápido sem um adeus e um luto. Aquele momento de esperança não foi materializado e isso foi complicado. A pessoa parte e nós não nos podemos despedir convenientemente”, explica à Agência ECCLESIA.

Marco Bernardino estava confinado em casa, devido à infeção por Covid-19, que contraiu por ter estado a cuidar da mãe, que recuperava de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), quando o pai foi internado no Hospital, infetado com Covid-19, onde viria a falecer dias depois.

A mãe, doente há “muito tempo”, depois de uma intervenção “simples ao coração que correu bem”, sofreu um AVC e foi “gradualmente perdendo as faculdades”; a recuperar em casa foi infetada com Covid-19, e apesar de “vacinada” não resistiu ao acumular de problemas e, 10 dias depois do marido, acabou por falecer.

O professor de ERMC estava isolado em casa e não se despediu dos pais.

São pessoas concretas e são ausências no coração de tanta gente. Falar dos que partiram é falar desta doença terrível que nos assolou; É falar também da esperança necessária e da proximidade que é necessária ter com os que vão sentindo estas ausências”.

Marco Bernardino explica que o desaparecimento do seu pai foi “mais complicado porque inesperado” e, apesar da ausência, explica, a mãe estava em sofrimento “há muito tempo” e o seu falecimento, entende-o, como “uma obra de misericórdia”.

“Já tinha terminado o período de confinamento e consegui estar nas cerimónias da minha mãe, despedi-me dela, apesar de não haver cerimónias religiosas por causa da Covid-19. Mas falta o momento, e para as pessoas de fé, aquele momento da presença, da oração em comunidade é muito importante. Há um sentido de incapacidade nossa de fazer mais qualquer coisa e a ausência, claro”, destaca.

A celebração do dia de Todos os Santos ganha este ano novos contornos e o teólogo assume que a identidade cristã lhe dá mais força e esperança.

É um conforto espiritual que me dá força, em momentos mais difíceis de ausência, em que gostava de falar com eles, ou quando nos lembramos deles. O dia de Todos os Santos ganha uma dimensão nova, naqueles que estiveram connosco, naqueles que nos amaram e deram identidade e agora estão junto de Deus. É uma perspetiva mais pessoal, de concretude da vida cristã”.

O professor de EMRC acredita que no processo de luto, e em especial de lutos sem despedidas, as comunidades podem ter um papel central.

“As amizades, as próprias comunidades podem ter um papel mais próximo daqueles que sabem que tiveram entes queridos que partiram: Não ter medo de estar junto, de dar uma palavra e um conforto. Tive isso na minha comunidade, foram de uma presença magnífica, e sentiram necessidade de acarinhar e estar próximos”, recorda.

Marco Bernardino assume uma postura racional perante os acontecimentos e, quando o seu pai começou a piorar, falou com o filho mais novo, que o viu chorar, e, afirma, não ter escondido nada, apontando para o processo natural da vida.

“Ao meu filho mais novo disse que o avô estava mal, não sabíamos o que iria acontecer mas, provavelmente, teria mais alguns dias de vida. Com oito anos, chorou bastante naquele momento, ficou abalado, chorámos juntos e tranquilamente foi percebendo que a ausência do avô era algo que seria natural; a minha filha mais velha assume tudo mais interiormente”, recorda.

Passados quatro meses da perda de ambos os pais, Marco Bernardino afirma ser um processo que continua, sendo “sempre difícil”, sobretudo pela forma como decorreu.

É continuar a pedir a Deus que dê forças, é ter a certeza na esperança da ressurreição, acreditar que Deus nos acompanha sempre e está sempre connosco e que nunca nos deixa abater pelo medo, pela ausência ou a depressão. Tem de haver uma dimensão da esperança cristã que está muito presente nestes momentos. Ver o pai mais calmo e tranquilo, apoiado em Deus, também ajuda os meus filhos”.

Em família, planeiam regressar à terra onde os pais estão sepultados, e rezar juntos num ritual que, assume, “não é necessário, mas dá raízes e ajuda na nova etapa sem os pais”.

“A minha esposa teve essa experiência há pouco tempo atrás – os meus sogros estão sepultados na sua aldeia de origem e ambas são muito próximas – e vamos em família rezar junto da sepultura. É uma homenagem e oração que podemos fazer e que nos conforta”, assume.

O testemunho de Marco Bernardino vai estar no centro do programa Ecclesia, na RTP2, emitido na solenidade de Todos os Santos.

PR/LS

Partilhar:
Share