Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Hoje fala-se muito em soft skills, isto é, competências comportamentais difíceis de avaliar porque têm a ver connosco como pessoas e com a nossa capacidade de construir relacionamentos. Alguns exemplos são a nossa atitude, o modo como comunicamos, o pensar criativo e crítico, a tomada de decisões, a empatia, a ética, a flexibilidade, a liderança, motivação, paciência, gerir o tempo e a nossa atenção, entre muitas outras. Mas no fundo, quando penso em soft skills, penso no nosso coração.

Quando nos referimos ao nosso coração, não pensamos sempre no orgão físico que bombeia o sangue pelo corpo. Por vezes, referimo-nos a coração como todo o nosso ser: corpo-mente-espírito. Recentemente, li uma frase que me interpelou sobre a abertura do nosso coração, que significa a abertura daquilo que sou aos outros. Uma abertura que está na base de toda e qualquer soft skill.

«Muitas vezes, a melhor maneira de abrir o nosso coração é fechar a boca.» (Jonathan Merritt, jornalista de religião)

De facto, há quem tenha opinião sobre tudo. Fala do que sabe, e do que não sabe como se soubesse. Uma expressão para esta última atitude são os típicos treinadores de bancada. Sabem sempre o que o treinador deveria fazer, mas não sei o que lhes aconteceria se estivessem, realmente, nesse papel. A impressão que tenho é a de que a culpa seria sempre dos outros. Há alguns anos, enquanto almoçava com a minha mãe num restaurante local, deparei-me com uma pessoa assim. Almoçava sozinho, falava alto e opinava sobre tudo. Falava demais.

Quando falamos demais e não deixamos os outros falar, desenvolvemos pouco a abertura de coração que nos desperta para a novidade do outro. Eu reconheço que tenho muito a melhorar neste aspecto, mas creio que na Era Digital, não será apenas a boca que poderia fechar-se, mas também as mãos.

Pensem bem. Quantas mensagens não circulam pelo mundo das mais variadas formas. O conteúdo não chega através da boca, mas dos dedos das mãos. A diferença é que as mãos podem editar o que escrevem antes de comunicar a mensagem, enquanto que as palavras que saem da nossa boca não são editáveis. Porém, ao redirigir a nossa comunicação da boca para as mãos, corremos o sério risco de a tornar mais superficial.

A experiência da comunicação online está dessincronizada com a realidade porque estamos sempre a pensar no modo como os outros irão interpretar o que escrevemos. Logo, em vez do nosso coração se abrir, a tendência é fechar-se sobre a imagem bonita que queremos transmitir daquilo em que pensamos.

A internet prometia abrir o nosso pensamento ao mundo, mas, em vez disso, reduziu o espectro dos nossos pensamentos partilhados aos que não ferem a imagem de nós próprios, criando uma bolha de ideias com as quais as pessoas no nosso círculo comunicativo se identificam.

A unidade só pode acontecer na diversidade que exige a abertura de coração e, por vezes, isso implica o fechar da boca e o parar das mãos. Por isso, unidade é diferente de uniformidade, mas o maior problema, hoje, pode não ser a ausência de diversidade, mas a remoção da consciência de haver outras formas de pensar que a dita bolha de ideias esconde do nosso horizonte relacional.

Há ideias com as quais discordo, mas isso não deveria impedir a abertura de coração. Impede mais o facto de vivermos apenas com aqueles que pensam da mesma maneira do que nós. Talvez por isso tenha dificuldade em fechar a boca quando alguém pensa de maneira diferente. Um aspecto que podia melhorar e que convido cada leitor a pensar e melhorar também.

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