«Não podemos continuar a fazer de conta que não vemos», defendeu D. Francisco Senra Coelho, em encontro do setor social

Évora, 15 mai 2026 (Ecclesia) – O arcebispo de Évora criticou hoje, no auditório da Fundação Eugénio de Almeida, naquela cidade, a falta de respostas políticas e financeiras face ao envelhecimento e a pobreza.
“Não podemos continuar a fazer de conta que não vemos”, afirmou D. Francisco Senra Coelho, na intervenção que proferiu no encontro do setor social da Arquidiocese, com o título “Comprometidos no serviço”, falando de uma sociedade que “vai passando ao lado de problemas horríveis”.
O arcebispo de Évora defende que “é necessário olhar de frente para uma das questões prementes” do país, “que são os idosos e os desafios da solidariedade”.
Os cuidados continuados foram também alvo do olhar de D. Francisco Senra Coelho, considerando-os uma das áreas mais críticas do setor social e da saúde.
“Continuamos a observar e a testemunhar os encerramentos destas valências”, indicou, citado pelo Departamento de Comunicação da Arquidiocese, referindo-se às unidades de cuidados continuados.
O arcebispo de Évora destacou que a falta destas respostas está a empurrar idosos e doentes dependentes para as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPIs), aumentando a pressão sobre os lares.
O problema está também a atingir os hospitais, denunciou, acrescentando que estas unidades acabam por manter internadas pessoas sem retaguarda adequada, fazendo com que se estejam a transformar em ERPIs.
D. Francisco Senra Coelho realçou ainda peso crescente das doenças associadas às demências e à saúde mental, admitindo que situações como o Alzheimer fazem estas estruturas “viver momentos difíceis”.
O encontro reuniu responsáveis da Igreja, da Segurança Social e de instituições do setor, ficando marcado por também pelas denúncias à falta de profissionais, o desgaste humano dos trabalhadores e o subfinanciamento das respostas sociais.
Os participantes reconheceram que as respostas sociais vivem um momento de enorme exigência, sobretudo numa região envelhecida como o Alentejo, onde os lares acabam muitas vezes por substituir respostas de saúde que não existem.
O diretor do Departamento da Pastoral Social da Arquidiocese de Évora, o padre Manuel Vieira, deu conta que no território existem “24 Centros Sociais Paroquiais, 36 Santas Casas da Misericórdia, 11 Fundações, a Cáritas Diocesana e cinco Cáritas Paroquiais”, num total de “265 respostas sociais a funcionar”.
Segundo o sacerdote, esta rede continua a sustentar “o rosto mais humano da sociedade”, muitas vezes longe da visibilidade pública.
As nossas instituições são muitas vezes o último lugar onde alguém ainda encontra escuta, acolhimento e dignidade”, mencionou.
A sobrevivência das instituições sociais foi um dos pontos do discurso, sobre o qual o padre Manuel Vieira demonstrou preocupação, falando em “custos crescentes, respostas sociais subfinanciadas e recursos limitados”.
Muitas organizações vivem diariamente “o difícil equilíbrio entre manter a missão e garantir a viabilidade”, ressaltou.
O diretor do Departamento da Pastoral Social da Arquidiocese de Évora alertou para a falta de “cuidadores, técnicos, educadores, auxiliares”, descrevendo um trabalho “humanamente intenso, mas mal remunerado e nem sempre suficientemente valorizado”.
O padre Manuel Vieira chamou ainda a atenção para o “cansaço acumulado”, “pressão constante” e “responsabilidades grandes” dos profissionais e voluntários que, ainda assim, continuam a cuidar e a servir.
A iniciativa contou também com a participação do diretor do Centro Distrital da Segurança Social de Évora, Nuno Alas, que reconheceu que o setor enfrenta “novas formas de fragilidade emocional e económica”, além do envelhecimento, da solidão e da pobreza persistente.

O responsável considerou que as IPSS de inspiração cristã “parceiros indispensáveis do Estado e da sociedade civil”, ressaltando que “chegam onde muitas vezes outros não conseguem chegar”.
Nuno Alas relatou igualmente que a sustentabilidade financeira continua longe de estar garantida, sobretudo nas instituições mais pequenas.
O encontro “Comprometidos no Serviço” reuniu representantes de misericórdias, centros sociais paroquiais, fundações, Cáritas e outras instituições da área social e incluiu outras intervenções sobre a ação social à luz da Doutrina Social da Igreja e a profissionalização, compromisso e voluntariado na gestão das instituições.
Na segunda parte da iniciativa foram abordados temas como a inovação nos cuidados à demência, com a experiência do Centro de Demências da Santa Casa da Misericórdia de Castro Marim, o papel do voluntariado no setor social e a utilização de plataformas digitais de gestão.
LJ/OC
