D. Manuel Clemente diz que prioridade é promover uma sociedade «paliativa», que acompanhe quem sofre

Foto: Ricardo Perna/Família Cristã

Fátima, 14 nov 2019 (Ecclesia) – O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) defendeu hoje em Fátima que os legisladores políticos têm de ouvir as vozes da sociedade que se opõem à legalização da eutanásia, desejando um debate esclarecido sobre o tema.

“Há muitos pronunciamentos, muita reflexão sobre este tema” que não são exclusivos da Igreja Católica, indicou D. Manuel Clemente, na conferência de imprensa de encerramento da Assembleia Plenária da CEP, que decorreu em Fátima desde segunda-feira.

Questionado sobre um eventual referendo sobre a legalização da eutanásia, o cardeal-patriarca de Lisboa disse que um pedido direto, por parte da Igreja Católica, não está “na agenda”.

“Agora que o assunto seja debatido, que seja aprofundado, que se tome bem consciência do que está em causa, pelos legisladores, isso faremos tudo o possível”, referiu.

O responsável admitiu a participação ativa da Igreja Católica num eventual referendo, desejando uma maior “consciencialização” e “informação” das pessoas, com o contributo “de outras realidades da sociedade portuguesa que vão no mesmo sentido”.

“Este tema toca-nos a todos, como seres humanos”, ultrapassando o plano da crença religiosa, insistiu D. Manuel Clemente.

O presidente da CEP considerou que ainda há “tanto para fazer” na área dos cuidados paliativos, os quais deveriam ser a “prioridade” dos responsáveis políticos.

“Deve-se caminhar no bom sentido: acompanhar as pessoas na altura em que precisam mais de ser acompanhados”, sustentou.

A vida de toda a gente é importante até ao seu último momento”.

A prioridade dos cuidados paliativos, por parte do Estado, passa também pelas “famílias e os cuidadores”, muitas vezes desamparado, afirmou D. Manuel Clemente.

Foto: Ricardo Perna/Família Cristã

O cardeal-patriarca falou em “números assustadores” nos países onde se implementou a prática da eutanásia, considerando que ali despareceram as “barreiras”.

“Não se sabe onde vai parar e a sociedade demite-se de acompanhar muitos dos seus membros, exatamente quando eles mais precisam de ser acompanhados”, advertiu.

No início dos trabalhos da Assembleia Plenária, D. Manuel Clemente tinha reforçado a oposição da Igreja Católica às propostas de legalização da eutanásia, citando responsáveis médicos, religiosos e da sociedade civil que se partilham esta visão.

A intervenção citou a Nota Pastoral ‘Eutanásia: o que está em jogo? Contributos para um diálogo sereno e humanizador’, de 2016, na qual os bispos católicos afirmam que “nunca é absolutamente seguro que se respeita a vontade autêntica de uma pessoa que pede a eutanásia”.

No início da nova Legislatura, o Bloco de Esquerda apresentou um projeto-de-lei que visa despenalizar a prática da eutanásia em Portugal, uma proposta que foi rejeitada em 2018 na Assembleia da República.

O presidente da CEP comentou ainda o caso da mãe sem-abrigo que abandonou um bebé, em Lisboa.

“Infelizmente, a nossa sociedade ainda permite coisas destas, por ausência. Temos de fazer mais, temos de fazer melhor”, apontou.

Para o cardeal-patriarca, este caso é sinal de “uma sociedade pouco paliativa”, palavra que significa “algo que envolve, que cuida, toma cuidado”.

“Nós tomamos pouco cuidado, uns dos outros”, lamentou.

O Supremo Tribunal de Justiça rejeitou hoje o pedido de libertação imediata da mãe do bebé encontrado no lixo.

OC

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