Sociedade: «O luto pode ser uma coisa maravilhosa quando partilhado e acompanhado por alguém» – Francisco Ferreira

Jovem de 19 anos encontra na escrita e na partilha uma forma de apaziguar a ausência do pai, que morreu há um ano

Foto: Agência ECCLESIA/LC

Lisboa, 28 out 2026 (Ecclesia) – Francisco Ferreira, de 19 anos, perdeu o pai em 2025, vítima de uma doença oncológica, e acredita que a partilha dos momentos de tristeza é a melhor forma de viver o luto.

“Eu acredito que a ausência tem de ser vivida. O tema do luto não pode ser tabu – não se fala, não se comunica, não se desabafa. Acho péssimo porque o luto pode ser uma coisa maravilhosa quando partilhado e acompanhado por alguém”, explica o jovem estudante à Agência ECCLESIA.

Estudante de Matemática aplicada à Economia e Gestão explica como a partilha o tem feito amadurecer, desde que em agosto de 2025, o seu pai morreu.

“Não é fingir que a dor não existe, não é ignorá-la ou empurrá-la para um canto. É bom chorar mas sinto que quando estou a falar do meu pai, estou a contar a história de um santo. Como também sinto que consigo ajudar os outros. E isto faz com que o meu luto seja apaziguado”, assinala.

Francisco tinha 11 anos quando o pai adoeceu, tendo perdido as cordas vocais e passado a expressar-se através de um botão; anos mais tarde a doença voltou a manifestar-se e se durante um tempo o jovem preferia ignorar, a fragilidade do pai foi-se impondo.

“Na perspetiva de um miúdo de 11 anos, a doença era revelada por idas ao hospital, mas, sendo muito sincero, eu estava muito alienado da situação, todas as brincadeiras que tínhamos continuavam a acontecer. O cancro obrigou-o depois a retirar cordas vocais, começou a falar por um botãozinho na garganta e, se inicialmente isso me assustou, depois tornou-se rotina”, recorda.

Francisco explica que só teve noção da fragilidade do pai, mais recentemente, “dois ou três meses antes da sua morte”.

O jovem dá conta que as memórias que tem do pai “não têm um antes e depois da doença”: “Está tudo na categoria ‘memórias do pai’. A única diferença é que as memórias dele, já doente, são aquelas também que me fizeram perceber o seu amor por mim”.

“Só tive consciência deste amor no processo da doença e por isso é que eu vejo todo o processo do cancro como uma bênção e não como uma maldição. É uma ausência tremenda e, não digo isto isento de sofrimento, mas é uma bênção que eu recebi ao compreender alguém que me ama infinitamente”, conta.

Estudante de Matemática, Francisco Ferreira foi encontrando na escrita de poemas uma forma de se entender e mais tarde percebeu que os seus poemas poderiam ajudar outros.

Em 2025, juntamente com três amigos, publicou um livro «Ainda nos lemos – Escritos de um ano», onde partilha textos sobre o seu progenitor e as marcas que o acompanhamento da doença deixou; para breve está a publicação de um novo livro, de autoria singular, «Sempre contigo – Uma vida depois de ti», mais focado na experiência do luto.

“O meu objetivo com o livro que as pessoas possam ler e compreender quem era o meu pai e, ao mesmo tempo, que não se sintam sozinhas no luto”, sublinha.

“Quando perdi o meu pai, ao perceber a forma como o meu pai queria que eu vivesse e o exemplo que me queria tornar, comecei a ver as coisas de forma muito mais séria. Não sou mais feliz depois de perder o meu pai, mas sou uma pessoa mais madura e consciente das minhas ações”, assinala.

A conversa com Francisco Ferreira pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, emitido esta noite na RTP Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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