Rui Ferreira, Arquidiocese de Braga

1 – O Arcebispo Primaz D. Jorge Ortiga completou no passado dia 18 de julho, memória de São Bartolomeu dos Mártires, o seu 22.º aniversário como titular da Igreja bracarense. Como sabemos, a Arquidiocese de Braga continua a aguardar a nomeação de um novo prelado, após o pedido de resignação de D. Jorge Ortiga apresentado há mais de dois anos. A mitra arquiepiscopal haverá de cair em breve sobre a cabeça de um dos atuais bispos portugueses. Tem sido veiculado até um certo desconforto com a delongada espera pela nomeação de novos bispos[1]. Recorde-se o caso de Viana do Castelo que está sem bispo há quase um ano, após o inesperado falecimento de D. Anacleto Oliveira, e de algumas outras dioceses que aguardam a nomeação de Bispos Auxiliares, como é também o caso de Braga.

2 – Nos últimos dias surgiram notícias sobre uma presumível conclusão desse processo[2]. Embora exibindo um elevado grau de ceticismo sobre a plausibilidade, e até autenticidade das fontes, emanada por esta nota informativa, não deixa de se constituir como mais uma oportunidade para uma reflexão sobre uma temática muito relevante para a Igreja à qual pertenço. Após mais de duas décadas de uma prelazia que alterou profundamente os ritmos eclesiais, Braga justifica uma liderança que dê continuidade à missão desempenhada por D. Jorge Ortiga.  O próprio indicia que o mais natural é que o novo Arcebispo seja proveniente de outra diocese, esperando que “possa trazer um ritmo diferente” e “outra maneira de conceber a Igreja”[3]. A notícia veicula a terna sucessória – lista com os três candidatos finais para um cargo eclesiástico – que integrará os nomes de D. Virgílio Antunes, D. José Cordeiro e D. António Moiteiro. O processo, conduzido pelo Núncio Apostólico, D. Ivo Scapolo, e indagado junto da Congregação para os Bispos, terá chegado ao final. A decisão do Papa Francisco terá presumivelmente recaído sobre o Bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes.

3 – O processo para a escolha de um novo bispo revela-se geralmente sigiloso e pouco participado. Após a definição dos candidatos ao lugar, a Nunciatura promove um inquérito junto de outros bispos e sacerdotes, excecionalmente também a alguns leigos, sob reserva e sigilo. Apesar disso, tem sido frequente o conhecimento público destes nomes, como sugere as notícias postas a circular. Saúde, condutas morais, mas também as virtudes humanas, espiritualidade e liderança são alguns dos temas abordados na inquirição[4]. Trata-se de um processo eminentemente hierárquico onde os leigos e a generalidade dos fiéis estão ausentes.  Não colocamos em causa o sigilo do processo, pois essa fórmula permite salvaguardar a devida isenção e as condições ideais para o discernimento, no entanto, numa Igreja que proclama a vocação universal dos cristãos, não seria exigível uma consulta mais evidente às igrejas locais, nomeadamente aos leigos que tomam parte nos diversos âmbitos da pastoral?

4 – Comecemos pelo nome que tem sido apontado como o escolhido: D. Virgílio Antunes. O atual Bispo de Coimbra tem 59 anos e leva uma década à frente daquela diocese. A notícia, que acabou por se espalhar por outros órgãos de comunicação social, aponta mesmo o atual Bispo de Coimbra como o próximo titular de Braga, prevendo-se para breve um anúncio oficial. O prelado conimbricense tem-se destacado por exercer um governo colegial, incrementando a participação dos leigos no governo diocesano[5]. Sereno e com reconhecida capacidade diplomática, D. Virgílio Antunes apresenta-se com um perfil apropriado para a sua sede arquiepiscopal. Os seus 59 anos antecipam uma prelazia considerável, considerando a habitual resignação aos 75 anos de idade. Os 16 anos em perspetiva poderão ser um horizonte alargado numa Arquidiocese tão laboriosa e exigente? Perante este argumento certamente alguns recordarão o épico papado de João XXIII que, em apenas cinco anos de pontificado conseguiu empreender uma das maiores reformas da história da Igreja. No entanto, não pode deixar de ser um importante fator de ponderação.

5 – Em meados do século XVIII, mais propriamente entre 1741 e 1756, a Igreja de Braga acolheu no seu sólio o Arcebispo José de Bragança. Foi uma prelazia marcante, apesar de ter perdurado menos de década e meia, em que um prelado proveniente da Casa Real acabou por desafiar muitos poderes dominantes, nomeadamente do Cabido. Que diríamos hoje se a Arquidiocese, entretanto significativamente menos extensa, voltasse a acolher outro D. José de Bragança? O Bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, é apontado como outro dos nomes da terna que a Nunciatura terá remetido para Roma. Com 54 anos de idade e uma década de prelazia, é um dos bispos portugueses melhor preparados academicamente, mas também do ponto de vista eclesial. Doutorado em Liturgia, tem-se destacado especialmente na adaptação da Igreja aos novos meios digitais, procurando implementar uma pastoral mais adequada aos desafios hodiernos. Como não lembrar o epíteto de “Bispo do Facebook”[6] que lhe foi atribuído devido à sua presença ativa nas redes sociais?

6 – O terceiro presumível nome da terna é o de D. António Moiteiro Ramos, atual Bispo de Aveiro. Assertivo quanto baste, empático e decidido, o prelado natural de Penamacor parece exibir um perfil interessante para assumir o sólio bracarense. Com 65 anos de idade e sete anos à frente do governo aveirense, tem-se destacado no âmbito da implementação de um novo modelo de catequese cristã e no apelo à renovação das comunidades eclesiais[7]. Acresce a isto, o facto de conhecer bem a Arquidiocese, dado que a sua primeira experiência episcopal foi precisamente como Bispo Auxiliar de Braga entre 2012 e 2014. Se esse argumento prevalecesse sobre outros, a decisão seria certamente difícil, uma vez que quase um terço dos atuais bispos também já cumpriram etapa na Arquidiocese bracarense.

7 – Haveria certamente outros bispos portugueses, que provavelmente, por motivos circunstanciais ou de missão, não foram ponderados nesta decisão e que apresentam um perfil adequado ao contexto atual da Arquidiocese de Braga. Recordo, por exemplo, o Bispo Auxiliar de Lisboa, D. Américo Aguiar que, pela sua idade e personalidade, seria uma excecional opção. No entanto, devemos confiar que a decisão será tomada com o devido discernimento e tendo sempre como princípio orientador o bem maior da Igreja bracarense. Aguardemos, pois, com expectação e alento, a comunicação da decisão final do Papa Francisco que, certamente, será conhecida com brevidade.

 

Rui Ferreira

[1] https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/dioceses-insatisfeitas-com-ausencia-de-nomeacao-de-bispos-13932427.html (Visto em 21 de julho de 2021).

[2] https://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/d-virgilio-antunes-sai-de-coimbra-e-sera-o-novo-arcebispo-de-braga (Visto em 21 de julho de 2021).

[3] https://agencia.ecclesia.pt/portal/braga-d-jorge-ortiga-projeta-sucessao-e-espera-que-novo-arcebispo-ajude-a-criar-ritmo-diferente/ (Visto em 19 de julho de 2021).

[4] https://setemargens.com/exclusivo-7m-o-questionario-completo-acerca-dos-candidatos-a-bispo-na-igreja-catolica/  (Visto em 24 de julho de 2021).

[5] https://agencia.ecclesia.pt/portal/coimbra-d-virgilio-antunes-e-bispo-ha-10-anos-e-quer-igreja-participada-por-leigos/ (Visto em 25 de julho de 2021).

[6] Ver https://www.rtp.pt/programa/tv/p28063/e9

[7] https://agencia.ecclesia.pt/portal/aveiro-diminuicao-de-sacerdotes-deve-levar-nos-ao-empenho-na-renovacao-pastoral-das-comunidades-d-antonio-moiteiro/ (visto em 24 de julho de 2021).

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