Irmã Martinha afirma que Dia Internacional da Mulher sinaliza situações de exploração e de desigualdade e tem de ser mais do que oferecer uma flor

Foto Agência Ecclesia/PR, Irmã Martinha

Coimbra, 07 mar 2020 (Ecclesia) – A coordenadora da Equipa de Intervenção Social ‘Ergue-te’, que acompanha pessoas em situação de prostituição, disse que o Dia Internacional da Mulher celebra uma “esperança” e comprova que “há mecanismos” que fazem das mulheres “menos pessoas”.

“Assinalar o Dia Internacional da Mulher é assumirmos o compromisso de estarmos mais atentas às mulheres que ainda não se sentem completamente mulheres, completamente dignificadas, completamente ‘empoderadas’; que há mecanismos que as fazem sentir menos pessoas e, por isso, menos mulheres”, disse a irmã Martinha Silva à Agência ECCLESIA.

Para a religiosa das Irmãs Adoradoras, que vai ao encontro de mulheres em contexto de prostituição “por vocação”, o Dia Internacional da Mulher “significa muito e faz todo o sentido”, porque permanece a desigualdade e a exploração.

“Cada vez estou mais convencida que há mulheres que recorrem à prostituição porque há efetivamente desigualdade de oportunidades. Somos uma sociedade que nos desresponsabilizamos uns dos outros, que não reparamos em quem caminha ao nosso lado”, afirmou.

A irmã Martinha Silva denunciou também “mecanismos de competitividade” entre as mulheres e disse que o Dia Internacional da Mulher é celebrado no ‘Ergue-te’ para comemorar “a esperança e o horizonte, para além tantas situações de violência e de falta de dignidade”.

“Faz sentido assinalar este dia, mas é necessário ajudar as pessoas a descobrir o sentido deste dia e que implicações tem celebrá-lo”, sublinhou a irmã Martinha, considerando que não basta oferecer uma flor, mas é necessário o compromisso de toda sociedade com a dignificação da mulher, causa a que se dedicam as Irmãs Adoradora, nomeadamente em Coimbra.

Antes de iniciar o projeto ‘Ergue-te’, as Irmãs Adoradoras trabalharam num projeto da Cáritas Diocesana de Coimbra para acolher mulheres em situação de prostituição, entre 1989 e 2009, ano em a nova equipa de intervenção social foi instituída, através da IPSS Fundação Madre Sacramento, da congregação religiosa denominada Adoradoras Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade, para realizar a “aproximação a contextos de prostituição”.

O projeto ‘Ergue-te” fez 10 anos em novembro de 2019 e atendeu 1700 pessoas em contexto de prostituição no distrito de Coimbra, sendo cerca de 1600 mulheres, “maioritariamente estrangeiras e em situação irregular em Portugal”.

 

“‘Ergue-te’ é um projeto de intervenção social, que tem um espaço de atendimento e acompanhamento, a nível social, psicológico e de prevenção em saúde, assim como parcerias, com o Serviço Nacional de Saúde que garante quatro consultas por semana de planeamento familiar e ginecologia e duas por semana de medicina geral e familiar, independentemente de estarem legais”, explicou a irmã Martinha.

Em 2013 foi criada a “Estrutura de Emprego Protegido”, destinado às pessoas que estão a ser acompanhadas pelo ‘Ergue-te’, um “espaço onde podem estar um tempo para treinar hábitos e relações laborais”.

O acompanhamento e promoção de mulheres em situação de prostituição é para a irmã Martinha “uma vocação”, que surgiu quando passou um mês numa comunidade das Irmãs Adoradoras, em Lisboa, a “partilhar a vida”, sobretudo a mesa, com quem se prostituía ou tinha estado na prisão, num encontro entre “o sagrado e o profano”.

“Eu hoje, quando penso nisso, a sensação que tenho ainda é de vertigem: pessoas consagradas à mesma mesa com mulheres que vinham da prostituição e da cadeia, a partilhar como tinha sido o dia, as dificuldades, os sonhos, os anseios”, recorda.

Rapidamente percebeu que a consagração nas Irmãs Adoradoras “fazia muito sentido”, tanto por “estar diante do Santíssimo a adorar”, na capela, como “nos lugares mais difíceis, nas periferias de maior exclusão”.

A equipa técnica e de colaboradoras que faz parte do ‘Ergue-te’ faz “aproximação a locais de prostituição, de dia e de noite, em estradas do distrito de Coimbra, durante o dia, e nas ruas e nos bares à noite e nos apartamentos de prostituição, sempre que nos dão acesso”.

“O nosso objetivo é a dignificação da mulher, criando alternativas de vida, ao ritmo da mulher, com o tempo que ela precisa”, afirmou a irmã Martinha.

A equipa do ‘Ergue-te’ aposta na “na relação com a mulher”, aproxima-se “com muito respeito e delicadeza”, procura “propor alternativas” e faz um “plano de acompanhamento” de cada caso.

“Quando vou fazer giros, eu não me consigo habituar a ver uma mulher ali, na beira da estrada, à mercê de que apareça, um cliente e a leve”, disse a irmã Martinha.

“Sinto que tenho uma missão a cumprir aí. Isto é uma coisa que todos os dias me impressiona e me fere”, afirmou.

Para a religiosa das Irmãs Adoradoras, é necessário que toda a sociedade se responsabilize pela situação de mulheres que estão a ser exploradas e lamenta que “nas igrejas, catequeses, homilias” não haja “sensibilidade para esta problemática, quando Jesus a pôs no centro”.

“Estas mulheres são filhas desta sociedade, são nossas irmãs, são mães de família e é alarmante e preocupante como isto passa de geração em geração, porque estas mulheres vivem isoladas, são postas de lado e não criam vínculos”, lembrou.

“Já no século XIX, santa Maria Micaela, a fundadora das Irmãs Adoradoras, dizia que estas pessoas são tão mal vistas que os maus aproveitam-se delas e os bons fogem por medo ou contágio. E acho que isto não mudou muito, infelizmente”, concluiu a irmã Martinha

A entrevista com a coordenadora do projeto ‘Ergue-te’, irmã Maria Martinha Silva, é emitida no programa Ecclesia que passa na Antena 1 este domingo, pelas 06h00; depois, este programa é divulgado no portal da Agência ECCLESIA.

PR

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