António Estanqueiro, Professor e Formador

Agência Ecclesia/MC

Na comunicação interpessoal, falar verdade torna-nos dignos de confiança, enquanto mentir nos faz perder a credibilidade. Ninguém gosta de ser enganado. Apesar disso, a mentira é uma prática frequente na vida social. Todos nós mentimos. Quem diz que nunca mentiu, provavelmente está a mentir!

Simples ou sofisticadas, as mentiras têm diferentes graus de gravidade moral, consoante as circunstâncias e as intenções dos seus autores. Em geral, consideram-se menos graves as mentiras usadas com a intenção de não ferir os sentimentos de outra pessoa. Mais graves são as mentiras de alguém que pretende enganar e prejudicar os outros para seu próprio benefício.

 

O dever de dizer a verdade

Devemos ser honestos e dizer a verdade? Sim. Mas temos o direito de guardar silêncio sobre questões da nossa vida privada e a obrigação moral de não revelar confidências ou segredos profissionais. Neste sentido, omitir algumas informações não é mentir, é apenas saber ficar calado.

Seria imprudente dizer tudo o que se sabemos, pensamos ou sentimos, perante qualquer ouvinte, de qualquer modo e em qualquer circunstância. Para criar e manter relações humanas saudáveis e duradouras, faz-nos falta uma boa dose de autocensura.

A verdade exige prudência e delicadeza. Certamente, já ouvimos alguém a declarar: “Eu sou muito sincero e frontal; gosto de dizer sempre toda a verdade, nua e crua, doa a quem doer.” Uma afirmação destas revela coragem ou falta de bom senso?

Sinceridade não se confunde com insensibilidade. É sensato mostrar delicadeza quando se fazem críticas negativas ou se dão más notícias. Isto não significa renunciar à verdade e optar por mentiras doces, piedosas ou consoladoras. Significa estar atento aos outros e não lhes causar sofrimento desnecessário. Faz diferença o que se diz, como se diz e quando se diz. Todos gostamos de ser tratados com empatia e respeito.

Haverá alguma circunstância em que se justifica o recurso à mentira?

Certos pensadores, em especial Santo Agostinho e Kant, afirmam que devemos dizer a verdade, independentemente da situação, quaisquer que sejam as consequências. Nesta perspetiva, a mentira, mesmo usada com boas intenções, é sempre uma prática imoral.

Contra esta posição radical, a maioria dos pensadores considera que dizer a verdade é um princípio que não pode ser aplicado de forma rígida e incondicional, sem medir as consequências. No limite, a mentira é justificável quando usada para salvar a vida de alguém.

 

Reação à mentira

Quantas vezes interagimos com pessoas que nos contam mentiras? Com a experiência, aprendemos a descobrir alguns sinais da mentira na linguagem corporal (nas expressões faciais e nos gestos) dos nossos interlocutores. Mentir com o corpo é uma “ciência” que não está ao alcance de todos. A sabedoria popular avisa: “Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.”

Há mentiras difíceis de detetar. Acontece com as meias-verdades, onde se misturam o verdadeiro e o falso. Quem diz meias-verdades, faz malabarismos com as palavras e distorce factos ou números, de acordo com os seus interesses. Diz coisas verdadeiras, enquanto conscientemente esconde o essencial da verdade com a intenção de enganar os outros. Trata-se de uma estratégia desonesta usada muitas vezes na política e nos negócios para ganhar poder e dinheiro.

Não é boa atitude desconfiar de toda a gente. Mas devemos interpretar com espírito crítico as mensagens que escutamos, sem confundir o erro com a mentira. Quem erra, não sabe que está enganado. Quem mente, tem intenção de nos enganar.

O que fazer quando descobrimos que alguém nos mentiu? Depende da pessoa, da gravidade da mentira e da proximidade da relação.

Em certas situações, é boa prática conversar em privado com a pessoa e perceber porque não disse a verdade. Podemos aceitar as desculpas de quem admite que mentiu e promete corrigir-se. Quem mente sem vergonha ou de forma compulsiva e nada faz para mudar, merece o nosso afastamento.

 

Educar os filhos

Não há vacina contra o vírus da mentira. Por isso, é necessário educar as crianças e os adolescentes para o valor da verdade. Uma responsabilidade dos pais. E também de outros educadores.

As crianças não mentem antes dos três anos de idade. Confundem a imaginação com a realidade. Gradualmente, vão perdendo a inocência e aprendem a contar pequenas mentiras para evitar castigos ou obter benefícios. E, com a sua esperteza, depressa descobrem que as mentiras funcionam e não fazem crescer o nariz, ao contrário do que acontece na história do Pinóquio!

No seu processo de desenvolvimento cognitivo, emocional e social, os adolescentes usam mentiras mais sofisticadas. Recorrem à mentira para defender a autoestima, conquistar a aprovação do seu grupo ou proteger os amigos. Mentem também quando são pressionados pelos pais com perguntas indiscretas sobre assuntos de que preferem não falar (por exemplo, álcool, drogas e sexualidade).

Antes de reagir, os pais precisam de manter o autocontrolo e, num clima de confiança, tentar compreender os verdadeiros motivos das mentiras dos filhos. Perante mentiras conscientes e graves, devem repreender os filhos com firmeza, mas sem agressividade, ajudando-os a refletir sobre as consequências negativas do seu comportamento na relação com os outros. Ameaças e castigos não educam.

Adianta pouco dizer aos filhos que mentir é feio. Faz mais sentido elogiá-los quando eles têm a coragem de falar verdade. O essencial é dar-lhes bom exemplo. Os filhos aprendem através da observação e da imitação. Se os pais mentem, o que podem esperar dos filhos?

Os pais não são os únicos educadores. As crianças e os adolescentes também recebem educação dos professores e de outros adultos de referência. Mas tudo começa na família. Quando os pais são bons modelos, os filhos aprendem mais facilmente a importância da verdade. Sem verdade, nenhuma relação tem futuro. 

António Estanqueiro
Professor e Formador

 

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