Educação: «A IA é a maior dor de cabeça, mas também o presente mais maravilhoso que temos»

Lisboa acolhe conferência geral que reúne equipas diretivas e professores de colégios da Rede Global de Escolas das Religiosas do Sagrado Coração de Maria

Foto: Agência ECCLESIA/JPG

Lisboa, 02 jul 2026 (Ecclesia) – A inteligência artificial (IA) esteve esta manhã no centro da Conferência Geral das Escolas das Religiosas do Sagrado Coração de Maria (RSCM), em Lisboa, que é vista, pelos participantes, como um desafio à educação, mas também como uma oportunidade.

“A IA é a maior dor de cabeça, mas também o presente mais maravilhoso que temos. Tem tantas possíveis vantagens, especialmente no contexto educativo. Mas também tem tantos perigos e falsidades que, a menos que sejamos muito, muito cuidadosos, seremos conduzidos por caminhos que não queremos seguir”, afirmou Susan Kumnick, coordenadora da Rede Global de Escolas das RSCM, em declarações à Agência ECCLESIA.

O encontro, que se iniciou no passado sábado e termina esta quarta-feira, reúne cerca de 100 participantes, incluindo equipas diretivas e professores de 19 dos 21 colégios, tendo como tema “Formação que inspira em tempos de mudança: Identidade, Compromisso e Transformação Global”.

Face ao desenvolvimento da IA, Susan Kumnick destaca que é preciso fazer “muito mais” para ensinar os professores e estudantes a distinguir o que é verdade, o que deve ser seguido e que ferramentas devem ser utilizadas com os jovens.

“E especialmente na sociedade atual, onde tantos alunos são vítimas de bullying, onde tantos alunos não conseguem escapar porque, 24 horas por dia, 7 dias por semana, temos telemóveis e redes sociais”, assinalou.

“Também precisamos de tempo para a vida espiritual. Também precisamos de tempo para o silêncio”, defendeu.

Foto: Agência ECCLESIA/LJ, Coordenadora da Rede Global de Escolas das RSHM

A coordenadora da Rede Global de Escolas das RCHM entende que é necessário que Deus preencha novamente a alma de cada um, para que todos possam “voltar a sair e enfrentar o mundo” e as pessoas com quem trabalham e estudam.

A participar no encontro esteve também Teresa Nogueira, conselheira geral do Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, que assume que a IA e os avanços das tecnologias digitais são “uma preocupação”.

“Não porque vejamos nelas um obstáculo, mas porque nos obrigam a pensar o lugar da humanidade e a visão de pessoa humana, as questões antropológicas, como podemos preparar os nossos alunos com imaginação, com sentido crítico, de modo a salvaguardarem a sua integridade humana e a serem defensores da dignidade humana num tempo atual”, acrescentou.

A religiosa salienta que o caminho passa por ajudar os estudantes a desenvolverem a sua “interioridade”, “integridade”, relações “fortes” e “sólidas”.

“Não olhamos a inteligência artificial como um mal e, portanto, nesta atitude defensiva, mas sim numa atitude proativa de integrar aquilo que pode ser ajuda para o futuro”, sublinhou.

O diretor pedagógico do Colégio do Sagrado Coração de Maria – Lisboa, Paulo Ribeiro Campino, entende que o maior desafio da IA na educação é a capacidade de aproveitar tudo o que de bom ela pode trazer para a pedagogia, sem nunca descartar o humano.

“E é neste conjunto que nós devemos trabalhar para que a inteligência artificial, que não pode ser posta de parte, hoje é uma realidade nas nossas escolas, possa potenciar o nosso trabalho”, salientou.

De acordo com o responsável, os colégios estão agora a iniciar uma “grande reflexão sobre a utilização” desta tecnologia e, por isso, identificou-se a necessidade de dedicar um dia da conferência a este tema.

O penúltimo dia do encontro incluiu comunicações da irmã Catherine Vincie, membro do Comité da Rede Global, sobre a “Inteligência Artificial e Ética Católica Romana”, e de Octávio Carmo, jornalista da Agência ECCLESIA, sobre “Humanizar o Digital – Tecnologias Digitais, Inteligência Artificial e Espiritualidade”.

Marco Bento, professor na Escola Superior de Educação de Coimbra, encerrou a manhã a abordar o tema “Desenvolvimento Tecnológico. Capacitação para uma Educação Transformadora”.

Em declarações à Agência ECCLESIA, o docente defendeu que é preciso desmistificar a presença da inteligência artificial na educação, salientando que é também necessário ter em conta que a IA vai exponenciar o pensamento de cada um.

“E se eu, na verdade, eu aluno, não tiver um pensamento crítico, um pensamento analítico bem pré-trabalhado quando estou exposto à IA, o que ela vai expor ou exponenciar é essa ausência de pensamento”, enfatizou.

Sobre o papel dos docentes perante esta tecnologia, Marco Bento considera que uma das capacitações que as pessoas precisam mais é de perceberem que “são os curadores de conteúdo”.

“Ou seja, a curadoria daquilo que é colocado na IA ou o diálogo que é feito com a IA faz parte da sua responsabilidade. Não de transmitir conhecimento, porque ele existe em diversos modos e em diversas formas, mas a forma como se fideliza aquilo que se encontra”, explicou.

Questionado sobre o lugar do professor poderá estar em risco com a inteligência artificial, o docente lembrou que os sentimentos são aquilo que distingue o homem da máquina.

“Aquilo que me parece que fará com que um professor não seja substituído é porque essa dimensão humana dentro do professor estará sempre presente, no seu olhar, no toque que tem para um aluno. E isso o robô pode simular, mas não sente”, afirmou.

Foto: Agência ECCLESIA/JPG

A Conferência Geral de Escolas das RSCM realizou-se este ano em Lisboa, seguindo a tradição de os encontros anuais acontecerem dois anos na Europa e dois anos na América, chegando ao fim esta quarta-feira.

O diretor pedagógico do Colégio do Sagrado Coração de Maria – Lisboa fez um balanço da experiência, falando que os dias têm sido marcados por “um conjunto muito rico de intervenções”, que têm chamado à atenção para questões que têm implicância na prática pedagógica.

“Depois destes grandes encontros, em cada um dos colégios há multiplicação do que aqui apresentámos. Nós, no caso concreto deste encontro em Lisboa, procurámos também fazê-lo através do enriquecimento por um site, onde iremos pôr as conferências, os debates”, mencionou.

Atualmente, a Rede Global de Escolas da RSCM é constituída por 21 colégios ao redor do mundo, nos EUA, México, Colômbia, Brasil, Portugal, Itália, Reino Unido, França, Irlanda do Norte e Inglaterra.

“As irmãs deram-nos notícias muito, muito boas. Podemos vir a abrir uma nova escola em África, no Zimbabué”, adiantou Susan Kumnick.

A responsável deu conta também que a Rede Global de Escolas RSCM passou o ano passado a trabalhar num plano estratégico de cinco anos para esta estrutura e que uma parte dele foi iniciada esta semana, em Lisboa, na conferência geral, indicando que foi o “momento perfeito” para trabalhar na criação do perfil de como seria um aluno finalista.

“Vamos trabalhar neste projeto até amanhã. Esperamos obter bons resultados com isso. Depois, cada escola irá identificar pelo menos uma vertente de um dos nossos objetivos. Temos quatro objetivos. Cada escola irá escolher pelo menos um objetivo para trabalhar durante o próximo ano”, referiu.

LJ/PR

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