Entre a fidelidade e a negociação A criação do Bispo de Hong Kong como Cardeal terá sido, de todas as escolhas do Papa para o seu primeiro Consistório, aquela que mais interesse mediático suscitou. Pela primeira vez, há um Cardeal de Hong Kong enquanto território chinês e, como o novo Cardeal sublinhou, nem todas as reacções por parte de Pequim foram negativas. O Cardeal Joseph Zen é um profeta incómodo para o governo comunista, mas a sua figura é um símbolo dos valores que não se podem sacrificar em nome da normalização das relações entre o Vaticano e China. Após o almoço de hoje com o Papa, no Vaticano, D. Zen sublinhou que a sua escolha foi “uma honra para o povo chinês” e que a púrpura que agora veste “lembra a disponibilidade de derramar o próprio sangue pela Igreja”, como já aconteceu a muitos chineses. A questão de fundo reside, precisamente, no heroísmo dos fiéis da Igreja que, na China, permanecem fiéis ao Papa e a Roma. O regime chinês controla a Associação Patriótica Católica (APC) – com cerca de quatro milhões de seguidores -, nomeia os bispos do continente e recusa o reconhecimento da autoridade do Vaticano, que tem cerca de dez milhões de fiéis na chamada “Igreja clandestina” chinesa. Nos últimos meses, a APC lançou uma violenta campanha, destinada a evitar qualquer aproximação entre Pequim e o Vaticano. Vários contactos informais têm sido desenvolvidos desde que Bento XVI sucedeu a João Paulo II, fazendo do estabelecimento de relações diplomáticas com a China uma das suas prioridades, algo que a APC vê como um perigo para a organização. Encontrar uma pessoa que seja modelo para esses cristãos oficiais e para os “clandestinos” não seria fácil. O Cardeal Zen goza de um prestígio indiscutível entre as duas comunidades, mas como o próprio reconheceu hoje à imprensa, as negociações decorrem sem que ele tenha conhecimento das mesmas: a sua postura de defesa intransigente da democracia e dos direitos humanos não o tornou muito popular entre os membros do governo chinês. A chave de solução poderá estar no processo de nomeação de Bispos para a China, mas nunca desautorizando o Vaticano. Qualquer cedência perante os homens do regime chinês poderia ser mal interpretada por todos aqueles que, ao longo de décadas, sofreram perseguição, foram presos ou enviados para “campos de reeducação”, celebrando às escondidas com receio das autoridades. Um caso semelhante aconteceu no pontificado de João Paulo II, com a comunidade greco-católica da Ucrânia, que sobreviveu na quase completa clandestinidade à repressão comunista na URSS. Apesar de saber que, ao acolher estes católicos, estaria a criar hostilidade duradoura junto da Igreja Ortodoxa da Rússia, nunca o Papa polaco sacrificou os chamados “uniatas” à negociação com Moscovo – abrindo um capítulo que ainda hoje é, provavelmente, o principal pomo de discórdia entre as duas Igrejas. O Consistório destes dias deixou um sinal claro do que deverá ser a opção de Bento XVI no caso da China. Durante a oração universal da cerimónia de setxa-feira, uma mulher rezou em chinês “por todos os que ainda sofrem por causa da sua fé cristã, para que na oração experimentem a certeza da comunhão de toda a Igreja e possam um dia colher, na alegria, aquilo que ao longo de muitos anos semearam com paciência e amor”. O coração de um líder não pode, como é evidente, ignorar a coragem e a fé de quem nunca renegou a sua fidelidade a Roma, nem mesmo durante as mais duras perseguições.
