Ator Júlio Martin destaca que «há uma noção de solenidade», sendo visível o «cuidado que Jesus teve» em criar condições
Lisboa, 27 mar 2026 (Ecclesia) – Os encenadores Júlio Martin e Matilde Trocado explicaram o teatro, neste seu dia mundial (27 de março), como “o lugar do humano”, “uma arte colaborativa”, e comentaram a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, em Domingo de Ramos.
“Todo o relato da paixão é uma das coisas mais cénicas. Aliás, mesmo nós quando vamos à Missa neste domingo é sempre a leitura mais encenada do ano inteiro, e, de facto, isto é muito cénico”, disse Matilde Torcado, em entrevista à Agência ECCLESIA.
A Igreja Católica vai iniciar a Semana Santa, os momentos centrais do ano litúrgico que recordam a Paixão de Jesus, com a celebração dos Ramos, este domingo, dia 29 de março, e nas Missas vai ser lido o Evangelho da entrada triunfal de Jesus, em Jerusalém, segundo o da Paixão.
“Esta entrada em cena é fortíssima. Isto era uma abertura de um musical mesmo muito forte, não precisa de mais nada”, salientou a entrevistada, encenadora de musicais como ‘Wojtyla’ (São João Paulo II), ‘Thérèse Martin’ (Santa Teresinha do Menino Jesus) e ‘Calcutá’.
Segundo o ator Júlio Martin, nesta cena vê-se “o cuidado que Jesus teve em criar as condições” para que esta entrada fosse como se ouve no relato do Evangelho, com “uma noção de solenidade” e que é preciso criar as condições adequadas para que “um certo ato tenha um determinado efeito”, o que “é muito importante”.
“É importante realmente valorizar a palavra e saber dizer a palavra. A mim entristece-me sempre em leituras, em que a leitura até é feita de uma forma correta, mas às vezes não se ouve bem, não se percebe bem, e a leitura exige essa solenidade. Quando isso é conseguido eu acho que a mensagem passa com muito mais força”, acrescentou.
Neste Dia Mundial do Teatro 2026, Júlio Martin explica que quando estes momentos litúrgicos são trabalhados “com algum cuidado, com alguma beleza”, ganham uma outra dimensão, “e é completamente diferente assistir a uma celebração com essa componente de beleza”, seja musical, como plástica, “como pela forma de dizer, de dizer bem, de criar essa empatia, do que simplesmente cumprir”.
Matilde Torcado sublinha que a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém “é muito forte, é uma entrada em cena muito forte”, e realça que “é muito plástica em termos de cores, em termos de sons”, é mesmo “muito rica, muito engraçada”.
“Há uma coisa muito bonita de todo este relato, que relaciona com o teatro porque muitas vezes vamos ao teatro para ver o que está a ser, mas para nos vermos ali, e eu acho que é o que acontece com todo este relato. É claro que é para seguirmos aquela narrativa, mas é para nos encontrarmos naquela narrativa, ou seja, é para nos vermos neste relato da Paixão, não só ver o relato da paixão”, desenvolveu a encenadora.
Júlio Martin acrescenta que com a leitura dos Evangelhos as pessoas são convidadas a se colocarem naquele lugar e naquelas pessoas, “e na figura de Jesus tentar imaginar o que é que seria aquele que ele se sentiria neste percurso da paixão, e em toda a sua vida”, e também no lugar dos vários apóstolos.
“Permite-nos justamente essa viagem. É um exercício espiritual realmente nesse sentido de visualizar e de sentir tudo isso que eles sentiram, e que no fundo continuamos a sentir na nossa vida”, salientou o ator.
“É para vermos onde é que nós estamos ali, e eu acho que isso tem a ver com o teatro de certa forma, é o exercício que muitas vezes nos acontece no teatro, é nós nos vermos naquilo que está a ser; eu acho que todo este relato é isso que pede de nós, para vermos nesta entrada cénica onde é que eu estou, qual é que é o meu papel”, acrescentou Matilde Torcado.
Neste Dia Mundial do Teatro, assinalado a 27 de março, o Instituto Internacional do Teatro (ITI) da Unesco convidou William Dafoe para escrever a mensagem 2026, e o ator norte-americano salienta que “o teatro, como forma de arte total, pode fazer-nos entender o que foi, o que é, e o que o nosso mundo poderia ser”.
LS/CB/OC
