Unidos pelos laços de sangue e pela vocação, sacerdotes têm mais duas irmãs com quem têm uma relação de «fraternidade»
Lisboa, 29 mai 2026 (Ecclesia) – Pedro e Afonso Rosa Sousa são gémeos e partilham a opção pelo sacerdócio desde 2022, altura em quem foram ordenados padres, assumindo que o cruzamento de caminhos lhes permite dividir as experiências da atividade sacerdotal.
“Além de ser o meu irmão de sangue, que é muito importante, é também o meu irmão no ministério”, afirmou Afonso Rosa Sousa, pároco da Pontinha, no Patriarcado de Lisboa, ao Programa ECCLESIA, transmitido hoje na RTP2.
A entrevista foi exibida hoje no âmbito do Dia dos Irmãos que se celebra no dia 31 de maio, data instituída por deliberação da Conferência Europeia das Famílias Numerosas.
Os laços de sangue são reforçados com a vivência da mesma realidade vocacional, originando a possibilidade de “partilhar tudo, até as inquietações sacerdotais”, conta o padre Afonso.
“Às vezes surge: ‘Será que é bom ir por aqui? Vamos experimentar isto. Vou fazer esta atividade na paróquia. O que é que te parece? O que é que tu achas?’”, relata o sacerdote.
O padre Afonso Rosa Sousa reconhece a importância de ter uma visão de fora, de alguém que é próximo, salientando que o “diálogo traz frutos”, bem como de ter com quem desabafar, partilhar “dúvidas” e “tristezas pastorais”.
Os gémeos têm mais duas irmãs, Carolina e Teresa, com quem dizem ter uma relação de “fraternidade”.
“É espetacular, porque nos apoiamos, não é uma amizade apenas, como se fossem os amigos, porque nos conhecemos mais do que os amigos, porque vivemos realmente muito tempo juntos”, explica Pedro Rosa Sousa, reitor do Seminário de Penafirme.
“Partilhamos a nossa vida, preocupações, alegrias, tristezas, onde as nossas vidas se cruzam e é mesmo isto que acontece”, acrescenta.
Apesar de já não viverem juntos na mesma casa, os gémeos continuam com uma relação “intrínseca” e de “proximidade”, falando diariamente por telefone.
O sacerdote Pedro Rosa Sousa destaca que os irmãos acolhem sempre sem barreiras, sem estigma, com amor verdadeiro, autêntico e total, sendo essa a experiência que tem de família.
“Nós somos padres, às vezes as nossas irmãs chamam-nos por padres só para brincar connosco, mas claro, o facto de tratarmo-nos todos por tu permite essa experiência de ‘estamos unidos nisto’ e apoiamo-nos também para apoiar os pais”, refere.
Apesar de serem gémeos e de terem um percurso muito semelhante, o padre Afonso Rosa Sousa salienta que cada um é único e tem os seus dons.
“Uma das experiências maiores que a família e os irmãos podem ter é passarem tempo em conjunto à refeição, e nós passamos muito tempo de irmãos assim à refeição, onde partilhamos tudo. Não há nenhum tema tabu que não se possa falar à mesa entre irmãos”, testemunhou.
O reitor do Seminário de Penafirme realça que o facto de os dois terem apenas dois anos de diferença da irmã mais velha fez com que criassem um “núcleo muito forte”.
“E quando surge a nossa irmã mais nova, a Teresa, que tem sete anos de diferença de nós, ela entrou muito bem e nós entrámos com ela, porque éramos os três a tomar conta dela”, indica.
Os irmãos recordam que os tempos de infância, no verão, quando faziam uma escala e dividiam as tarefas entre eles, o que permitiu criar “muita cumplicidade”.
Atualmente, os dois sacerdotes cultivam a tradição de todas as segundas-feiras jantarem em casa dos pais, com as irmãs, sendo esta uma refeição que é antecedida de uma Missa, celebrada numa capela construída no interior da habitação.
“É giro, porque são os pais a ler e são as irmãs a ler. Isso é engraçado, é muito entre nós. E depois desta dinâmica, quando vamos para a mesa, trazemos todos histórias daquela semana”, conta o padre Pedro.
O reitor do Seminário de Penafirme ressalta a boa experiência de ir acompanhando “o percurso de cada um”, com “modalidades diferentes, mas unidos na partilha de vida”.

Os gémeos foram ordenados sacerdotes no mesmo dia, a 3 de julho de 2022, após um percurso de quase de 10 anos de formação no Patriarcado de Lisboa.
Às vezes dá a ideia que quando um rapaz entra no seminário, a família perde. Aqui a família ganhou. Ganhou, mas trocou algumas coisas. A minha experiência de ir, fui o primeiro a ir para o seminário, foi que a família teve que se adaptar”, disse o padre Pedro.
O sacerdote lembra os tempos em que esteve no seminário, quando só podia receber uma visita por semana e ia a casa uma vez por mês, para passar um fim de semana: “Isso fez também com que esses tempos fossem mais de qualidade”.
“Foi ganhar tempo de qualidade com a família, e sobretudo redescobrir como é bom estar juntos. Porque é muito fácil estar uma família no mesmo espaço e não estarem unidos”, enfatizou.
Em entrevista, os dois sacerdotes abordaram também os novos irmãos que ganharam depois de terem sido ordenados.
“É giro como enquanto padres, às vezes vamos ter com algum padre, já nos aconteceu ir a Espanha, Itália, Roma, Vaticano, e de repente todos os padres se cumprimentam. Eu nunca vi aquele padre, mas há uma certa fraternidade”, expressou o padre Afonso.
Desde as ordenações sacerdotais, os irmãos contam que promovem, no Natal e na Páscoa, um almoço com sacerdotes.
“Tentamos alargar o convite a muitos, não dá para todos os padres do Patriarcado, mas tentamos muitos e temos feito sempre, ou nas paróquias onde estamos, ou agora no seminário”, referiu o padre Pedro.
LS/LJ/OC
Igreja: Afonso e Pedro Sousa são irmãos gémeos e vão ser ordenados padres
