Dia da Mulher: Refugiada afegã apela à união contra o extremismo e pede pressão sobre regime talibã

Mahdiya Erfani agradece acolhimento em Portugal, onde estuda Medicina, sem esquecer quem sofre na sua terra natal

Foto Agência ECCLESIA/PR, Mahdya Erfani

Lisboa, 07 mar 2026 (Ecclesia) – Mahdiya Erfani, jovem refugiada afegã e estudante de Medicina em Portugal, apelou à solidariedade das mulheres portuguesas na defesa dos direitos da população feminina, assinalando a celebração do Dia Internacional da Mulher.

“Quero pedir às mulheres portuguesas e às mulheres de todo o mundo que estejam com as mulheres do Afeganistão e que estejam presentes para elas, pois atualmente elas não têm voz para reivindicar os seus direitos, num país com um governo muito extremista”, afirmou, em entrevista à Agência ECCLESIA.

A estudante universitária abordou o papel da diplomacia e do diálogo inter-religioso, notando a atual coincidência entre o tempo católico da Quaresma e o mês do Ramadão como uma base comum para o encontro.

“Tenho a certeza de que haverá uma resposta positiva. Mas devo referir que este tipo de diálogo deve ser muito condicionado: vamos ser mais cooperativos com vocês [talibãs] caso abram escolas para mulheres”, advertiu Mahdiya Erfani, rejeitando a legitimação internacional de quaisquer políticas de opressão.

A fuga de Cabul aconteceu a 15 de agosto de 2021, motivada pelo perigo agravado que a sua família enfrentava, dada a oposição do pai aos talibãs e o seu próprio estatuto de estudante universitária na capital afegã.

“Nada disso foi tão difícil como o facto de, quando se chega a um lugar tão novo, se passar por uma crise de identidade. Equilibrar quem você é, a sua identidade, e quem você vai se tornar é muito difícil”, partilhou a jovem, natural da minoria étnica Hazara, recordando o passado de discriminação.

O acolhimento em território português garantiu à refugiada a possibilidade de prosseguir o curso de Medicina, proporcionando um espaço de liberdade pessoal e segurança que contrasta com a realidade do seu país.

“A grande coisa que Portugal me deu especificamente foi segurança. Pode-se estar segura, pode-se ser quem se é e pode-se expressar-se com segurança. Acho que foi algo que encontrei aqui e que é muito valioso para mim”, reconheceu a futura médica.

A realidade atual no Afeganistão, o único país do mundo que proíbe o acesso da população feminina à educação além do ensino básico e à universidade, tem provocado graves crises de saúde pública, como o aumento da mortalidade materna.

Aqui, em Portugal, posso ser um ser humano e ver-me a participar numa conferência, mas depois imagino que a minha prima está em casa e pode ser forçada a casar-se precocemente. Sem acesso à educação, sem nada… e isso magoa-me”.

A estudante da Universidade Católica Portuguesa exige que a comunidade internacional condicione qualquer relação com o governo talibã ao respeito pelos direitos humanos e apela à atribuição de bolsas de estudo europeias para as jovens afegãs.

“Se eu voltar ao Afeganistão, serei feliz por voltar equipada com os recursos que Portugal me deu, com a educação que Portugal me deu. Esse seria o meu objetivo final, voltar àquele país, ajudá-los, ajudar as pessoas, servi-las”, concluiu Mahdiya Erfani, deixando um agradecimento profundo à sociedade portuguesa.

A entrevista integra o Programa’70×7’ que vai ser emitido este domingo, na RTP2, pelas 07h30.

HM/OC

 

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