Presidente da Direção do Centro de Reflexão Cristã aponta «hesitações» nas comunidades católicas

Lisboa, 08 mar 2026 (Ecclesia) – A presidente da Direção do Centro de Reflexão Cristã (CRC), Inês Espada Vieira, afirmou que a valorização do papel das mulheres na Igreja Católica é ainda marcada por “hesitações”, pedindo mais rapidez neste processo.
“A Igreja tem de reconhecer, assumir, promover a necessidade de uma Igreja que seja de homens e de mulheres”, disse Inês Espada Vieira, convidada da entrevista conjunta ECCLESIA/Renascença que é emitida e publicada este domingo, Dia Internacional da Mulher.
A professora universitária reconhece que o debate promovido no processo sinodal, desde 2021, ajudou a relançar várias questões, mas diz que os avanços acontecem “devagar, devagarinho, quase parados”.
“As mulheres são mais para arranjar as flores, passar a ferro os paramentos, ser zeladoras, a catequese, claro, a pastoral missionária, as beneficências. Mas quem é que está no altar?”, refere.
Inês Espada Vieira rejeita a perspetiva de se abrirem espaços de participação feminina apenas como forma de “consolação” ou de “favor”, sublinhando que as mulheres representam mais de metade da sociedade, mas na Igreja acabam por estar ainda longe das funções de decisão e liderança.
A reflexão alargou-se à realidade civil, com a investigadora a assinalar que a consagração legal da igualdade nos 50 anos da Constituição Portuguesa ainda não se concretizou plenamente na prática, subsistindo dificuldades no acesso a cargos de chefia e desigualdades salariais.
“O Dia Internacional da Mulher é um dia para voltar a falar, falar insistentemente dessas situações”, indica a presidente do CRC.
O recrudescimento de narrativas extremistas e misóginas, como o movimento “red pill” entre os rapazes mais novos, gera um grande espanto na especialista, que convoca a escola pública e as famílias para travarem o retrocesso geracional.
“Não podemos ter diretores de escolas a dizer ‘não podemos controlar tudo, eles também em casa ouvem’”, observa a entrevistada.
Inês Espada Vieira abordou ainda a questão das migrações, denunciando o discurso que instrumentaliza a imagem da “mulher indefesa” como combustível para justificar a xenofobia.
A docente universitária, que acompanha jovens refugiadas de África ou do Médio Oriente, diz que estas partilham as mesmas ambições e medos que as raparigas crescidas em Portugal, enfrentando o duro desafio de terem de “viver numa outra língua”.
“A experiência que eu tenho com pessoas migrantes surpreendeu-me também nesses estereótipos, porque eu vejo casamentos e vejo famílias completamente funcionais e tão paritárias ou igualitárias como as nossas”, indica.
A finalizar, Inês Espada Vieira deixou um desafio para a vivência quotidiana, apelando à coragem de reivindicar direitos com audácia, firmeza e doçura nos espaços comunitários, de trabalho e na própria família.
“O feminismo não é o contrário do machismo. O feminismo é a igualdade”, sustenta.
Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
