Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Oiço frequentemente as expressões – “Deus usa-se de circunstâncias negativas…”, ou “Deus permitiu que isto acontecesse …” – para justificar que nada há que aconteça, mesmo se negativo, que Deus não esteja, por assim dizer, de acordo com isso. Caso contrário, Deus teria impedido esta ou aquela situação.

Tenho alguma dificuldade com este modo de falar e linguagem. Não me parece que Deus se sirva seja do que for, ou permita seja o que for porque “até podia impedir.” A minha intuição sugere que a linguagem que usamos pode não corresponder à realidade.

Diria antes que…

… a experiência de vida que advêm de circunstâncias negativas pode aproximar-nos de Deus como fundamento do sentido e significado de certos momentos difíceis da nossa vida que não têm sentido ou significado algum.

Eu diria que Deus não permite, mas participa connosco da contingência que faz do mundo uma realidade livre. Não sofremos porque Deus permite. Sofremos porque isso faz parte do mundo e sem esse sofrimento, nada de criativo de faz.

O preço da criatividade

A criatividade distingue a humanidade da restante família animal, mas como não há criatividade ou liberdade sem sofrimento, enquanto não aceitarmos as circunstâncias que possibilitam alguma evolução neste universo, faremos da suposta permissão de Deus o nosso bode expiatório para superar a ausência de sentido de certas realidades negativas e perdemos a oportunidade de fazer uma experiência de verdade com Ele.

Deus não assiste passivamente às realidade negativas que vivemos, mas está connosco e sofre como nós sofremos, vivendo-as no íntimo de nós, mesmo que não nos demos conta disso. Talvez aquela paz diante da total ausência dessa ao nosso redor; ou aquela luz para dizer a palavra certa quando tudo parece perdido e sem sentido; ou ainda o momento decisivo de motivação intrínseca que nos leva para a frente quando o vento sopra contra nós; talvez todo o momento criativo emergente do sofrimento seja um reflexo da presença de Deus que entenderemos cada vez mais e melhor no tempo e na história.

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