Desporto: «Uma atividade humana que promove o bem-comum e a Igreja deve acarinhar», afirma José Carlos Lima

Investigador em Ética Desportiva assinala que Leão XIV desafiou «a comunidade cristã para desenvolver atividades desportivas», no Vídeo do Papa de junho

Foto EPA/Lusa, Miguel A. Lopes, Treino da seleção nacional de futebol para o Mundial 2026

Lisboa, 18 jun 2026 (Ecclesia) – José Carlos Lima, investigador em Ética Desportiva, destacou que “os últimos Papas” se têm preocupado em “criar pontes entre o desporto e a Igreja”, a partir de recentes pronunciamentos de Leão XIV, e das iniciativas dos cardeais Américo Aguiar e José Tolentino Mendonça.

“Os últimos Papas têm-se preocupado com esta questão do desporto, criar pontes entre o desporto e a Igreja, porque realmente sentem que é uma atividade humana e, portanto, rica, cristã também nesse sentido, uma atividade que, de certa forma, promove o bem-comum, e, nesse sentido, a Igreja deve acarinhar”, disse José Carlos Lima, esta quinta-feira, em entrevista à Agência ECCLESIA.

Leão XIV evocou o início do Mundial 2026, apresentando o futebol como uma lição contra o individualismo, num encontro com organizações solidárias, no dia 10 de junho, em Barcelona, na sua viagem apostólica a Espanha.

O Papa Leão XIV também indicou o desporto como um “caminho de paz” e “escola de fraternidade”, na proposta de oração de junho, onde realçou que é “uma alegria jogar em equipa”, mostra que “ninguém se salva sozinho”, e convidou as comunidades católicas a rezar “pelos valores do desporto”.

“Isso é uma grande questão, porque, efetivamente, o desporto revela essa ambivalência, é uma escola de fraternidade. É uma expressão muito bonita que o Papa encontrou para definir o desporto, é onde se pode aprender, exercitar um conjunto de valores como a fraternidade, muito no ensejo de Francisco, da fraternidade universal”, assinalou José Carlos Lima.

Para o investigador em Ética Desportiva, o Papa vai buscar “aquilo que de melhor existe no desporto”, que é a escola, o exercício de valores, de uma fraternidade, mas, por outro lado, “também se preocupa com aquilo que de menos bom existe”, que anulam, de certa forma, “a própria pessoa humana, a sua dignidade, seja do doping, através de um negócio que muitas vezes os atletas são transacionáveis, são ativos económicos, produtos comerciais”.

“É muito importante que o Papa venha com esta intenção, esta oração, neste mês de junho, mês do Mundial, para sinalizar isso mesmo perante milhões de adeptos e também adeptos cristãos e católicos. Dizer que, apesar dos milhões que este desporto mobiliza, há um conjunto de valores que devemos cuidar e que devemos preservar”, realçou o docente e formador, que lembrou o documento do Vaticano sobre o desporto, intitulado ‘Dar o melhor de si’, publicado no pontificado de Francisco.

Segundo o entrevistado, licenciado em Teologia e mestre em Ciências da Educação pela Universidade Católica Portuguesa, na área do jogo, o Papa também vem dizer que “a Igreja não deve ter receio do desporto”.

Foto: Agência ECCLESIA/MC

“Deve olhar para o desporto como uma ferramenta para a promoção da paz, como ele fala, para encher os corações não vazios, mas encher os corações de atividades desportivas, para a realização da pessoa humana”, acrescentou o entrevistado, destacando que Leão XIV desafia a “comunidade cristã para desenvolver atividades desportivas”.

O bispo de Setúbal, D. Américo Aguiar, lembrou a “honra” em representar Portugal e pediu “mais uma alegria aos portugueses”, numa mensagem à Seleção Nacional de Futebol no Campeonato do Mundo 2026.

Para José Carlos Lima, esta mensagem do cardeal sadino, “no fundo, revela o sentido da comunidade cristã”, e, do ponto de vista institucional, “há cada vez mais essa aproximação entre a valorização de um desporto, digamos assim, mais mundano”.

No Vaticano, o cardeal D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, segundo o entrevistado, “está muito preocupado também com esta dimensão”, e, todos os anos, “organiza um encontro internacional dedicado ao desporto”.

“Portanto, percebe-se que é esta realidade humana que também tem que ser trazida para a Igreja. E isso deve ser valorizado, quer paroquialmente, quer, de certa forma, das dioceses, para que seja um instrumento também da promoção dos valores cristãos que o desporto tem”, destacou o investigador, que é o coordenador do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), iniciativa governamental portuguesa, sediada no Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

PR/CB

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