Cónego Mário Tavares de Oliveira, Arquidiocese de Évora

No pretérito dia 5 de Janeiro, João Cutileiro concluiu a sua passagem entre nós. A arte foi a sua veste e a escultura em pedra o seu alfabeto e a sua gramática. Évora e o país viram partir, inequivocamente, um nome maior do panorama artístico nacional e internacional.

É opinião unânime que João Cutileiro deu novo rumo à escultura em Portugal. Ele diz que nunca pensou em realizar tal façanha porque o que sempre quis foi só ser um homem livre. A verdade é que, desde que em Florença as obras de Miguel Ângelo lhe fizeram despertar o estro, o seu percurso revelaria um génio com um itinerário não só brilhante, mas também mapeador para muitos outros artistas. Irreverente e de humor espontâneo, de espírito descontraído e repentista, fulminava-nos o seu olhar vibrante onde pressentíamos, ao mesmo tempo, horizontes largos e próximos que nos envolviam fraternalmente.

João Cutileiro captou o meu olhar com uma singela escultura, um Espírito Santo, esculpido em mármore puro, de alvura feminina, patente num corredor do Hospital de Évora, mesmo em frente à capelania. A simplicidade e a espiritualidade intrínseca desta obra foram um sobressalto inesperado que ainda hoje recordo. Certamente, não será a vertente da religiosidade a que mais sobressai na obra do Mestre com origens em Pavia, mas é indisfarçável que há uma espiritualidade clandestina e subterrânea que está presente na obra de João Cutileiro.

Há cerca de 25 anos, estava profundamente envolvido com a construção da igreja de Nossa Senhora de Fátima, do bairro das Corunheiras, nos arredores da cidade de Évora. A atracção que tinha sentido pelo “Espírito Santo” do hospital de Évora levou-me à ousadia de ir ao encontro do artista para lhe encomendar um “Espírito Santo” para a capela do Baptismo da igreja em construção. Fui encontrá-lo de reverberadora na mão, a esquartejar com paixão um bloco de mármore no seu atelier a céu aberto, junto às Portas do Raimundo, como quem lhe quisesse vislumbrar a alma. Debaixo da cortina de pó que o revestia, os seus olhos não escondiam a surpresa de ser visitado por um padre interessado numa obra sua. Depois de ouvir a minha proposta, atalhou sem hesitar: “- Padre: quantos espíritos santos é que há? – Um só, claro! – retorqui.” Esboçando um sorriso afável, muito ao seu jeito, lá me foi dizendo: “- Pois, o meu já está feito. E como só há um… já não há nada a fazer!”. Não conseguimos demover o artista a mudar de ideias e ficaria assim intacta a verdade dogmática. Mas, inesperadamente, contrapropõe: “- E se fosse um Cristo? Sempre quis fazer o meu Cristo!” Confesso que não esperava tal repto e foi com algum desencanto que tive de lhe dizer que o Cristo da nova igreja seria um Ressuscitado, em bronze, e já tinha sido encomendado a um atelier de arte em Florença. “- Fico à espera! Ainda não é desta!”. Perguntei-lhe, então, qual a razão desse seu desejo, ao que ele respondeu: “- É por causa do abraço. Alguém que morre de braços abertos e fica a abraçar a humanidade para sempre, atrai-me muito. É um abraço universal e precisamos disso. E depois…eu também sou JC!” Rimo-nos descontraidamente diante daquela profissão genuína e singela e selávamos ali também o nosso abraço.

Na vasta obra de João Cutileiro, há uma intermitente, mas persistente, pegada de religiosidade que deixou plasmada em poemas de pedra. Na sua vasta obra há lugar para esculturas como a Nossa Senhora do Ó ou o São João Baptista, da Ribeira do Porto. À pedra fria, comunicava-lhe o calor e o afecto, a paixão e o compromisso com todos nós como quem acena, sem impor. Um artista inala o sopro da história, intui-lhe um sentido que anda suspenso e plasma em pedra um poema que é um mapa ou, no mínimo, um convite a entrar no “para além de nós”. A arte se não nos toca nas perguntas radicais da nossa existência, não serve para muito. E quando, como em Cutileiro, nos sentimos tocados pelo compromisso e missão do artista, descobrimos pontes que não imaginávamos e que só o ideal da beleza pode edificar.

Há pouco tempo, soube que JC se cruzou com o “seu” Cristo. No solar das Bouças, no verde Minho, na capela que também foi chamado a redesenhar, pontifica um Cristo de pedra que foi precedido dum longo advento. Para além do Cristo da abside, também o altar e a via sacra tiveram a sua autoria. Não sei se esculpiu outro, mas fico contente em saber que a sua espera o conduziu a um encontro certamente feliz, com o “seu” Cristo.

 

Partilhar:
Share